Voltei da missão três dias antes do previsto. Minha filha não estava no quarto dela, e minha esposa disse que ela estava "na casa da vovó", como se fosse a coisa mais normal do mundo. Fui até lá de carro e encontrei minha filha de sete anos no quintal, em pé dentro de um buraco, chorando, porque "a vovó disse que meninas más dormem em covas". Quando a tirei do chão gelado, ela se agarrou ao meu pescoço e sussurrou, tão baixinho que mal consegui ouvi-la: "Papai... não olhe no outro buraco".

Será que a mãe sabia o que a avó fazia com os buracos?

Os olhos de Emma se encheram de lágrimas. "Ela disse que eu estava me comportando mal. Que eu não estava a obedecendo. Que a vovó podia me ensinar a ser boazinha. Ela me levou lá na terça-feira e disse à vovó que eu precisava aprender a respeitar as pessoas."

Uma sensação fria e inconfundível apertou o peito de Eric.

"O que você fez de tão errado?", perguntou ele, cautelosamente.

Emma fez uma careta. "Eu não queria comer legumes", sussurrou. "E respondi mal para ele quando ele me mandou arrumar meu quarto."

Então ela começou a chorar, com soluços altos que sacudiam seu pequeno corpo.

"Não queria ser grosseiro, pai. Só queria que você voltasse para casa."

Eric a abraçou com força enquanto ela chorava. Acima da cabeça, seu rosto permaneceu imóvel.

Brenda tinha mandado a filha sofrer abusos, talvez algo pior, porque ela não queria comer legumes. Porque ela respondeu mal. Coisas normais que crianças fazem. O tipo de coisa que se resolve punindo-as ou tirando-lhes a sobremesa.

Não com uma mulher que colocava crianças em buracos no quintal de casa.

"Você não foi má", disse Eric, com o olhar fixo nos cabelos de Emma. "Está me ouvindo? Você agiu como uma criança normal. O que a mamãe fez foi errado. O que a vovó fez foi maldade. Mas você não fez nada de errado."

Emma fungou. "Posso ficar com você?"

"Você ficará comigo para sempre", prometeu Eric. "Eu juro."

Alguém bateu à porta.

Eric olhou pelo olho mágico.

Donald Gillespie.

Ele o deixou entrar.

"Como ele está?", perguntou Don em voz baixa.

"Ele vai sobreviver", disse Eric. "O que você descobriu?"

Donald pegou um bloco de notas. “Quatro sepulturas até agora. Sarah Chun; já sabíamos sobre ela. A segunda é de Marcus Wright, de dez anos, que desapareceu na Filadélfia há dois anos. Disseram aos pais dele que ele estava em um internato. A terceira é de uma menina; ainda estamos tentando identificá-la.”

A voz de Donald falhou por uma fração de segundo, depois se acalmou.

“E o quarto… o quarto é recente. Muito recente. Um menino chamado Tyler Brennan. Ele ficou lá apenas uma semana.”

Eric sentiu um aperto no estômago.

“Quantas crianças, no total, passaram por aquele lugar?”, perguntou ele.

“Estamos tentando descobrir”, disse Don. “Os documentos de Myrtle indicam que mais de 100 crianças foram acolhidas nos últimos cinco anos. A maioria sobreviveu, mas estamos comparando cada nome com os registros de pessoas desaparecidas.”

Eric olhou para Don. "E quanto a Christina Slaughter?"

A expressão de Don escureceu. "Como você sabe sobre ela?"

“Ele investigou o local anos atrás”, disse Eric. “Não encontrei nada. Depois, ele se aposentou e comprou uma casa que não deveria ter condições de pagar.”

“O FBI está investigando-a agora”, disse Don. Então ele hesitou. “Eric… tem mais uma coisa. Encontramos registros financeiros. Myrtle estava cobrando cinquenta mil dólares dos pais por um programa de três meses. Grande parte desse valor foi paga em dinheiro vivo. Estamos falando de milhões ao longo dos anos.”

"Onde está o dinheiro?", perguntou Eric.