As mãos de Eric apertaram o volante com mais força.
Ele havia sido treinado para combater inimigos no exterior, mas sob a luz fria e silenciosa da manhã, percebeu que o verdadeiro inimigo estivera ali o tempo todo, escondido à vista de todos.
E ele se certificaria de que todos os responsáveis pagassem pelo que fizeram, começando por sua esposa.
O quarto do hotel era quente e luminoso, nada parecido com a escuridão fria da propriedade de Myrtle. Eric ficou numa suíte com duas camas. Emma finalmente conseguiu dormir por volta do meio-dia, depois que um médico veio examiná-la.
Hipotermia leve. Hematomas. Trauma.
O médico foi gentil, mas meticuloso, documentando tudo, tirando fotos das lesões e escrevendo anotações com a precisão de alguém que entende o significado dos exames.
"Ele vai precisar de terapia", disse o médico em voz baixa à porta. "As crianças não superam isso simplesmente com o tempo."
Eric assentiu com a cabeça, embora sentisse como se sua garganta estivesse cheia de cacos de vidro.
Emma dormia. Eric sentou-se junto à janela com o laptop e fez pesquisas que deveria ter feito anos atrás.
Myrtle Savage. Centro de Retiros Espirituais Novos Começos.
Como é que eu nunca tinha investigado isso?
"Porque você confiou na Brenda", respondeu uma voz em sua cabeça. "Porque ela era sua esposa e você acreditou nela quando ela disse que sua mãe ajudava crianças problemáticas a encontrar Deus."
O site tinha um aspecto profissional. Depoimentos de pais agradecidos. Fotos de crianças sorridentes. Versículos bíblicos sobre disciplina e redenção.
Mas quando Eric pesquisou em fóruns e avaliações, encontrou histórias diferentes.
Um pai escreveu sobre ter mandado a filha embora por meses e tê-la encontrado de volta em silêncio, assustada e atormentada por pesadelos. Outro escreveu sobre ter tirado o filho de casa depois de uma semana porque ele havia emagrecido e voltado com hematomas, e Myrtle chamou isso de "disciplina espiritual".
Eric prosseguiu sua investigação e encontrou um artigo de anos atrás: uma investigação do condado após uma denúncia. Os serviços de proteção à criança visitaram o local e não encontraram nada de errado. A denúncia foi arquivada porque foi feita por um pai insatisfeito.
Eric olhou fixamente para o nome do pesquisador.
Christina Slaughter.
Ela registrou isso.
Ele se aposentou no ano passado. Comprou uma casa na Flórida. Uma bela casa, boa demais para a aposentadoria de um assistente social do condado.
Eric deitou-se de costas lentamente.
As peças começavam a se encaixar, e ele não gostava da imagem que formavam.
Myrtle fazia isso há anos. Crianças haviam se machucado. Algumas haviam morrido. Mesmo assim, o programa continuava porque alguém havia se certificado de que isso fosse possível.
O telefone dela tocou.
Derek Mullen.
Irmão.
A voz de Derek era firme e calma. Eles haviam servido juntos por oito anos. "Don ligou", disse Derek. "Ele disse que encontraram algo importante."
"Sim." Eric olhou para Emma, que ainda dormia. "Você ainda está na Virgínia?"
"Posso estar na Pensilvânia em seis horas", disse Derek. "Você precisa de mim?"
"Preciso saber em quem posso confiar", disse Eric.
"Don é bom", disse Derek.