Eric agarrou-a pelos ombros, levantou-a como se ela não pesasse nada e puxou-a para longe. Myrtle cambaleou, indignada, mas ainda assim sem medo de fugir.
Eric tirou as crianças de dentro da garagem exatamente no momento em que os faróis do carro apareceram na entrada.
Carros de polícia. Luzes piscando.
Donald Gillespie foi o primeiro a sair: um homem corpulento na casa dos cinquenta, com o rosto marcado pelo tempo e um olhar bondoso. Ele olhou para as crianças e imediatamente ligou o rádio.
"Precisamos de ambulâncias!", gritou ele. "Vários menores. Possível abuso e negligência."
As duas horas seguintes foram caóticas.
Chegaram mais policiais. Depois, a polícia estadual. Em seguida, agentes do FBI. Serviços de Proteção à Criança.
Encontraram mais seis crianças em um porão trancado. Todas desnutridas, machucadas e aterrorizadas. Todas com histórias sobre buracos no quintal, castigos e crianças que "fugiram".
Encontraram mais três sepulturas. Eric estava sentado em sua caminhonete com Emma enrolada em um cobertor, observando os investigadores invadirem a propriedade como se finalmente estivessem vendo a realidade. Myrtle foi presa, insistindo que ajudava crianças com problemas, alegando que os pais haviam assinado contratos, agindo como se a papelada pudesse santificar a crueldade.
Donald chegou perto do amanhecer.
"Eles vão precisar de declarações suas e da Emma", disse ele em voz baixa. "Não hoje. Primeiro, ela precisa consultar os médicos. Mas em breve."
Eric assentiu com a cabeça. Sua mão permaneceu nas costas de Emma, segurando-a.
"E os outros túmulos?", perguntou Eric.
"Uma já foi identificada", disse Don, com o semblante sombrio. "Sarah Chun. Desaparecida em Pittsburgh no ano passado. Nove anos de idade. Seus pais acreditavam que ela estivesse em um acampamento de verão."
Eric engoliu em seco.
"Estamos trabalhando nos outros dois", continuou Don.
O olhar de Eric deslizou em direção à casa na colina, depois em direção às montanhas que se estendiam além, como se ele pudesse ver a forma do estrago se alastrando.
"Como você sabia que deveria vir esta noite?", perguntou Don.
"Eu não sabia", disse Eric. "Cheguei em casa cedo. Brenda disse que Emma estava aqui. Eu só... sabia que algo estava errado."
A expressão de Donald mudou. "Brenda", disse ele com cautela. "Precisamos falar com ela também. Ela sabia o que estava acontecendo?"
Eric olhou fixamente para a frente, com o maxilar cerrado. "Não sei", disse ele, e a verdade lhe pareceu uma facada nas costelas. "Mas vou descobrir."
Emma se aconchegou contra o peito dele.
"Papai", ela sussurrou com uma voz fraca e exausta, "podemos ir para casa agora?"
"Não aquela casa", disse Eric gentilmente. "Vamos para um hotel, está bem? Um lugar quentinho. Cinema. Serviço de quarto. E você fica comigo."
Os olhos de Emma brilharam. "Você não vai embora de novo?"
"Nunca mais vou te deixar", prometeu Eric. "Eu juro."
Enquanto ele se afastava, o sol começou a nascer sobre as montanhas. Em seu retrovisor, as luzes da polícia continuavam a brilhar, fortes e incessantes. Equipes de busca vasculhavam a propriedade.
Eric pensou nos pais daquelas crianças recebendo ligações que os devastariam. Pensou nos pais de Sarah Chun finalmente obtendo respostas depois de um ano sem saber de nada.
E ela pensou em Brenda, adormecida em sua cama, que havia mandado a filha para aquela casa. Brenda sabia que Myrtle coordenava um programa disciplinar para crianças.
Emma não era "problemática". Emma era doce, inteligente e feliz.
Então, por que Brenda a mandou para lá?