"Ela está na casa da minha mãe", disse Brenda, como se estivesse dizendo que estava chovendo. "Eu te disse no e-mail."
"Que e-mail? Eu não recebi nenhum. Por que você está na casa da sua mãe no meio da noite?"
Brenda sentou-se, esfregando o rosto e passando as mãos pelos cabelos. "Ela está lá desde terça-feira. Mamãe tem cuidado dela enquanto eu... tinha algumas coisas para resolver."
"Faz parte do trabalho", acrescentou ele, rápido demais.
Eric olhou fixamente para a esposa. Em doze anos de casamento, ele aprendera a ler as pessoas. Era uma habilidade tanto de sobrevivência quanto de relacionamento. E naquele momento, todos os seus instintos gritavam que algo estava errado.
Brenda não o encarou nos olhos. Suas mãos tremiam, e não apenas porque ele a havia acordado.
"Vou procurá-la", disse Eric.
“Eric, já é meia-noite…”
Mas ele já estava em movimento. Desceu as escadas, saiu pela porta e entrou em sua caminhonete com a mochila jogada na carroceria como se não pesasse nada.
A mãe de Brenda morava a quarenta minutos dali, nas montanhas. Myrtle Savage nunca gostou dela. O sentimento era recíproco. Ela era uma mulher dura e fria, com uma frieza que nada tinha a ver com os invernos da Pensilvânia. Ela administrava uma espécie de centro de retiro em sua propriedade; terapia religiosa, como ela chamava. Eric sempre o chamou pelo que achava que ele era: um vigarista com as escrituras como armadura.
As estradas estavam vazias. Ele acelerou o caminhão mais do que o necessário, fazendo as curvas da montanha em alta velocidade. Suas mãos permaneciam firmes no volante, mas sua mente não parava de pensar.
Desde terça-feira.
Durante dias.
Por que Brenda não mencionou isso na última chamada de vídeo? Por que ela mandou Emma para a casa de Myrtle?
A propriedade de Myrtle ficava afastada da estrada, além de uma longa estrada de cascalho que levava a uma extensa fazenda. As luzes estavam acesas.
Essa foi a segunda coisa que eu não deveria ter feito.
Ninguém estava acordado àquela hora. Pelo menos ninguém normal.
Eric estacionou e saiu do carro. A porta da frente se abriu antes mesmo de ele chegar. Myrtle Savage estava parada na entrada, banhada pela luz forte do interior. Ela era alta e magra, com os cabelos grisalhos presos em um coque austero. Vestia uma camisola longa e tinha uma expressão que, em qualquer outra pessoa, poderia parecer preocupada.
Em Myrtle, ela parecia calculista.
"Eric", disse ela. "Brenda ligou. Ela disse que você viria."
"Onde está Emma?"
"Ele está dormindo. Você não deveria..."
Eric a empurrou para o lado para passar.
A casa cheirava a água sanitária e a alguma outra coisa, algo orgânico e estranho que lhe causava náuseas mesmo antes de ela entender o porquê. Myrtle a seguiu, com a voz irritada.
“Emma, você vai acordar as outras crianças.”
Eric parou no meio do passo. "Que outras crianças?"
Myrtle ergueu o queixo. "Eu coordeno um programa aqui. Crianças com problemas. Os pais as enviam para mim para receberem disciplina e orientação espiritual."
Eric conhecia o programa vagamente, com aquele conhecimento superficial que se tem de algo em que se evita pensar muito. Mas, olhando para Myrtle agora, ouvindo a palavra "disciplina" sair de seus lábios, sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
“Onde está Emma?”