Emma estava melhorando aos poucos. A terapia a ajudou. Os pesadelos eram menos frequentes, mas ruídos altos ainda a faziam estremecer. Ela se recusava a ficar sozinha em um quarto. Ficava de olho nas portas. Ficava de olho nas janelas.
"Ela vai se curar", disse a terapeuta. "Mas vai levar tempo. E ela sempre terá cicatrizes."
Eric sabia o que eram cicatrizes. Ele tinha cicatrizes visíveis de estilhaços e cicatrizes invisíveis por ter visto seus amigos morrerem.
O trauma não se supera. Aprende-se a conviver com ele.
Mas que azar o de Emma se ela tiver que conviver com seus próprios problemas enquanto os responsáveis saem impunes.
A solução veio de uma fonte inesperada: uma das famílias que Brenda havia recomendado entrou em contato diretamente com Eric.
Ralph Terrell, pai solteiro.
Eles se encontraram para tomar um café. As mãos de Ralph tremiam ao redor da xícara.
"Meu filho voltou mudado", disse Ralph. "Quieto. Assustado. Ele não fala sobre o que aconteceu, mas grita sobre buracos e covas enquanto dorme. Eu não sabia o que aquilo significava até ver o noticiário."
Eric manteve a voz firme. "Você sabia qual era o programa antes de enviá-lo?"
Ralph parecia constrangido. "Eu sabia que era difícil. Sua esposa disse que era uma abordagem rigorosa. Ela me mostrou depoimentos. Eu estava desesperado. Noah estava se comportando mal depois que a mãe dele morreu, e eu não sabia como ajudá-lo."
O estômago de Eric embrulhou. "Você pagou Myrtle diretamente?"
“Não”, disse Ralph. “Paguei uma empresa de consultoria, a Behavioral Solutions LLC. Eles cuidaram da papelada.”
O pulso de Eric acelerou. Era esse o nome que Derek havia encontrado, o da empresa que parecia não existir.
“Você ainda tem a documentação?”, perguntou Eric.
“Sim”, disse Ralph. “Por quê?”
“Porque acredito que a empresa é a chave para tudo”, disse Eric.
Ele tinha razão.
Usando a documentação de Ralph, o FBI rastreou a Behavioral Solutions até um advogado de Pittsburgh especializado em empresas de fachada para clientes ricos. O advogado tentou invocar o privilégio.
Eric não esperou.
Ele apareceu no escritório do advogado sem avisar.
Leon Donaghue.
Um homem elegante, na casa dos cinquenta, com um terno caro e bronzeado como se vivesse em campos de golfe, ergueu os olhos com irritação quando Eric entrou.
"Quem é você?", perguntou Donaghue.
"Eric McKenzie", disse Eric. "Minha filha foi prejudicada por um de seus clientes. Você construiu a estrutura financeira que permitiu que eles escondessem milhões."
A expressão de Donaghue tornou-se cuidadosamente neutra. "Não sei do que você está falando."
Eric largou uma pasta sobre a mesa. "Você criou essas entidades. Você as ajudou a movimentar dinheiro. Você as ajudou a se esconder."
Donaghue recostou-se na cadeira, com a voz calma. "Eu crio estruturas jurídicas para os clientes. O que eles fazem com essas estruturas não é da minha responsabilidade."
“Você sabia”, disse Eric, inclinando-se para a frente. “Ninguém constrói camadas assim para um pequeno retiro a menos que esteja escondendo algo.”
“Mesmo que isso fosse verdade”, disse Donaghue, “o privilégio protege minhas comunicações”.
Eric olhou fixamente para ele. "Isso não te protege de ser cúmplice."
Donaghue cerrou os dentes. "Eu não machuquei ninguém."
“Não”, disse Eric. “Você apenas tornou tudo mais fácil. Mediante pagamento.”
Os olhos de Donaghue brilharam. "Saia do meu escritório."
Eric não elevou a voz. Não precisava.
“Você tem um filho”, disse Eric.
Donaghue permaneceu imóvel.