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Durante quase dois meses, Leonardo vagou pela Plaza Fundadores como se estivesse atravessando um mundo que já não lhe pertencia.
Desde a morte do pai, no início do outono, a vida seguia seu ritmo habitual (vendedores gritavam por cima de suas cestas de milho, crianças corriam atrás de pedras em meio a risos fingidos, casais paravam para dar as mãos junto à fonte), mas Leonardo se sentia isolado de tudo aquilo.
Aos trinta e nove anos, ele possuía tudo o que as pessoas admiravam: um próspero império imobiliário, uma casa impecável em Colinas del Valle e um nome que lhe abria portas. No entanto, o silêncio que o aguardava todas as noites era mais pesado do que qualquer perda que ele já tivesse conhecido.
Seu pai costumava dizer isso sem rodeios, sem sentimentalismo: “Vá para onde as pessoas vivem suas vidas de verdade. O dinheiro nunca vai te ensinar o que significa ser humano.” Leonardo sempre assentiu, sempre concordou, e quase nunca seguiu esse conselho. Agora, livre de horários e rotinas rígidas, ele vagava sozinho. Sem assistentes. Sem telefonemas. Apenas seus passos e o eco de algo inacabado.
Naquela tarde, novembro trouxe consigo o aroma de tortilhas quentes e a terra úmida dos canteiros de flores recém-regados. As sombras das árvores altas se estendiam pela praça, e a fonte murmurava incessantemente, como se lembrasse à cidade que algumas coisas perduram, não importa o que aconteça. Leonardo parou, fechou os olhos e tentou localizar a dor dentro de si. O rosto de seu pai surgiu em sua memória, marcado pela doença, os dedos apertando sua mão com uma força inesperada. Um aperto que dizia: "Não desvie o olhar agora."
Atraído para a extremidade mais tranquila da praça, Leonardo notou um banco escondido sob um grande freixo. O que lhe chamou a atenção não foi o espetáculo ou o dramatismo, mas a simplicidade.
Uma jovem estava sentada ali, magra e com a postura tensa. Uma panela branca repousava em seus joelhos. Ao lado dela, duas crianças: um menino de uns oito anos, com o cabelo cortado de forma irregular, e uma menina mais nova com olhos grandes demais para o rosto magro. Suas roupas estavam limpas, mas gastas, conservadas pelo cuidado e não pela abundância.
A mulher — Karina — abriu a panela e começou a servir a comida. Generosamente, encheu duas porções e as passou para as crianças. Depois, recolheu o que sobrou: uma porção tão pequena que mal merecia esse nome.
Leonardo prendeu a respiração.
Ele havia negociado contratos multimilionários, observado homens posando e se gabando, doado para instituições de caridade onde os cheques eram recebidos com aplausos. Mas isso, essa rendição silenciosa sem testemunhas, despedaçou algo dentro dele. Dar sem ser solicitado. Escolher menos para que outros pudessem ter mais. Uma fenda se abriu em seu peito, e por ela surgiu algo desconhecido: clareza.
Karina concentrou-se completamente nos filhos. O menino sussurrou algo que fez a menina sorrir. Ele comia devagar, com cuidado, como se desejasse que o momento durasse mais. Karina ergueu a colher com as mãos trêmulas, não de nervosismo, mas de cansaço. Leonardo deu um passo à frente e parou.
"Não se intrometa", o mundo lhe ensinara. "
Não se desvie do caminho", seu pai lhe ensinara.
A cidade continuava a girar ao redor deles, indiferente. Então Karina cambaleou levemente, levando a mão à testa. O menino a agarrou, com os olhos alarmados. Ela forçou um sorriso, fraco, protetor, pouco convincente.
Leonardo se mudou.
Ele se aproximou com cuidado, falando baixo, com firmeza. "Com licença... Desculpe interromper. Você está se sentindo bem?"
Karina ergueu os olhos, assustada. Seus olhos eram âmbar, cansados, mas orgulhosos. Ela ajeitou o suéter folgado, endireitando-se como se a dignidade pudesse ser restaurada simplesmente por ficar de pé.
"Estamos bem, senhor", disse ele. Finalmente, sua voz embargou.
O menino, instintivamente, parou na frente dela.
Leonardo percebeu tudo: a pele pálida, a respiração ofegante, o tremor que ela não conseguia esconder. "Perdoe-me por perguntar novamente... mas você não parece bem. Quer que eu chame alguém?"
Ela balançou a cabeça, forçando um sorriso. "Deus proverá."
Ele não se considerava religioso, mas ouvir alguém que falava tão pouco sobre sua fé o desarmou completamente.
“Quando foi a última vez que você fez uma refeição completa?”, perguntou ele gentilmente.
Karina desviou o olhar. As crianças se agarraram aos seus braços. "Esta manhã", disse ela, mas seu corpo desmentiu a mentira.
Então tudo desmoronou.
A menina, Camila, escorregou do banco. Suas pernas cederam no meio do passo e ela caiu no cascalho, imóvel. A panela tombou. O arroz se espalhou pelo chão.
Karina gritou.
O menino, Julián, desabou ao lado da irmã, gritando o nome dela. As pessoas se viraram. Os murmúrios aumentaram. Mas ninguém fez nada.
Leonardo caiu de joelhos. Verificou se havia pulso. Estava lá, mas fraco. Sua pele estava fria. Seus lábios estavam rachados.
Ele não hesitou.
Ele pegou Camila nos braços. Ela não pesava quase nada.
“Vamos para o hospital”, disse ela com firmeza.
Karina tentou protestar. "Senhor, eu não tenho..."
"Não importa", disse Leonardo. "Venha. Agora."
A viagem por Monterrey tornou-se urgente. Semáforos vermelhos, buzinas, barulho… tudo irrelevante. No banco de trás, Karina embalava Camila, sussurrando orações em meio às lágrimas. Julián chorava em silêncio, como se conservasse suas emoções como se conservasse comida.
Leonardo apertou o volante com força, olhando repetidamente pelo retrovisor. Ele conhecia o diretor do hospital. Ele havia financiado alas, assinado placas. Até então, sentia-se distante.
Agora tudo havia terminado.
E pela primeira vez desde a morte de seu pai, Leonardo entendeu o que lhe faltava: não sucesso, não propósito, mas presença.
Ele parou em frente ao pronto-socorro, sem se importar que estava bloqueando o trânsito. Saltou do carro, pegou Camila no colo e correu em direção às portas automáticas.
O cheiro de desinfetante o atingiu em cheio, e as luzes brancas e brilhantes fizeram Karina parecer mais pálida, mais frágil. "Preciso de um médico agora!", gritou Leonardo em direção ao balcão. Em segundos, paramédicos apareceram com uma maca. Deitaram Camila, examinaram suas pupilas e a conectaram ao oxigênio.
—Desnutrição grave— Leonardo ouviu como se a frase lhe perfurasse a pele. Karina, com a voz trêmula, mal conseguiu dizer: — Ele não se alimenta bem… há dias.
Leonardo se virou para a recepcionista, pegou sua carteira e seu cartão. "Cuide dela imediatamente. Custe o que custar. Eu resolvo tudo. Tudo."
Sua voz tremia por dentro, mas por fora era firme. Era a primeira vez que ela sentia que dinheiro não era algo de que se orgulhar, mas uma ferramenta de que precisava desesperadamente.
Os minutos na sala de espera se tornaram um suplício. Karina andava de um lado para o outro, com o olhar fixo na divisória de vidro que separava a sala de emergência. Julián a abraçava pela cintura, escondendo o rosto em seu vestido verde-oliva. Leonardo permanecia imóvel, sem saber onde colocar as mãos, sentindo como se toda a sua vida tivesse sido dedicada a fechar negócios…
E agora ela não conseguia lidar com o medo. Quando uma médica finalmente apareceu, tirando as luvas, Karina sentiu o chão tremer sob seus pés.
“Ela está estável”, disse o médico com uma calma quase milagrosa. “Desidratação grave, desnutrição aguda. Ela precisará ficar hospitalizada por pelo menos três dias.”
Karina soltou um soluço de alívio tão profundo que seus joelhos tremeram. Leonardo instintivamente segurou seu braço, como se finalmente entendesse que, às vezes, se agarrar a algo é salvar.
Mais tarde, enquanto Camila dormia com um soro no braço e recuperava um pouco da cor, Leonardo convidou Karina para tomar um café. Julián adormeceu em uma cadeira, tomado pelo medo.
No café, Karina encarava um pão doce com evidente fome e vergonha ao mesmo tempo, como se a fome fosse uma falha moral.
Leonardo aproximou o prato sem dizer muito: "Por favor... coma." Karina deu uma pequena mordida, e o sabor encheu sua boca de vida.
Então, como se reabrisse uma ferida para que cicatrizasse, ela lhe contou sua história. O trabalho como empregada doméstica por alguns pesos por dia; os clientes que a demitiram quando Camila adoeceu; o quarto alugado do qual foram despejadas; os dias em que sobreviviam com uma panela de comida compartilhada;
Seus pais morreram em um acidente; o pai de seus filhos, Fernando, simplesmente desapareceu um dia, deixando para trás dívidas que foram cobradas dele.
Ele falou com tristeza, sim, mas também com uma força silenciosa, uma força que não soa heroica, mas é. Leonardo ouviu com o coração pesado.
De repente, a dor que sentia pela perda do pai mudou: não foi menos intensa, mas veio acompanhada da vergonha de ter vivido tanto tempo preso a uma tristeza confortável, protegido por muros caros.
Quando Karina terminou, Leonardo já havia se decidido, com a voz trêmula. "Minha casa... é grande demais para mim", disse ele, sentindo o quão ridículo soava vindo de alguém que apenas começava a compreender a verdadeira magnitude da solidão. "Há cômodos vazios, comida desperdiçada."
Quero que você e seus filhos fiquem lá enquanto Camila se recupera. Sem aluguel. Sem compromisso. Apenas... até as coisas melhorarem. Karina olhou para ele como se tivesse ouvido uma língua estrangeira.
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