pressa, em ternos impecáveis. Ninguém parou. Ninguém. Alguns até atravessaram a rua. Eu não sabia quem era aquele homem. Só sabia que ele estava morrendo na minha frente. Liguei para uma ambulância, fiquei com ele, segurei sua mão e entrei no veículo com ele. Ele estava apavorado e não queria ficar sozinho."
Ele fez uma pausa, sentindo a garganta apertar.
—Esse homem era Enrique Valdés Castillo.
Um murmúrio percorreu a sala.
“Depois que se recuperou, ele veio à minha casa em Vallecas”, continuou ela. “Conheceu minha mãe e meu filho. Começou a nos visitar. Conversávamos sobre a vida, sobre o que realmente importa. Ele me confessou algo: tinha um império, mas não tinha a quem recorrer quando o medo o dominava naquela calçada. Ali, ele tinha sócios, funcionários, admiradores. Mas ninguém que se importasse com ele como pessoa.”
Ele inclinou-se ligeiramente na direção de Ramos.
"Quantos de vocês o visitaram no hospital?", perguntou ele. "Quantos de vocês se sentaram ao lado dele sem falar de contratos ou números? Quantos de vocês sabiam que ele tinha medo do escuro desde criança?"
Ninguém respondeu.
“Enrique queria fazer uma experiência”, acrescentou. “Ele me pediu para vir aqui como sou, sem me disfarçar de algo que não sou. Ele queria ver como você trataria alguém que considera inferior. E hoje você mostrou exatamente quem você é. Não porque você sabia que eu herdei 82% da empresa, mas porque você não sabia.”
O silêncio era mais pesado que qualquer grito.
Foi então que a jovem no canto, aquela a quem ninguém havia dado uma segunda olhada, se levantou. Era Clara, a assistente administrativa. Ela caminhou até o balcão, serviu um copo d'água e entregou a Sofia.
"Só por precaução, caso você precise", disse ela baixinho.
Isso quebrou algo na cena. Não por causa da água, mas simplesmente por ver alguém escolher a humanidade naquele quarto congelante.
Ramos se virou para Clara, indignado.
—O que você pensa que está fazendo?
"Seja educado, senhor", respondeu ela, sem desviar o olhar.
Sofia deu uma risadinha bem baixinha. Não por escárnio, mas por alívio. Ela não estava sozinha.
Então ele falou com a calma de alguém que, finalmente, deixou de ter medo.
“Sejamos práticos”, disse ela. “Como acionista majoritária, tenho autoridade para decidir quem administra esta empresa. E já vi o suficiente.”
Ele olhou para Ramos.
—Ele está demitido.
O homem piscou, incrédulo.
-Que?
"Ele está demitido", repetiu. "Não porque não soubesse quem eu era, mas porque demonstrou que só respeita quem está no poder. Esse tipo de liderança não tem lugar na empresa que quero construir."
Os advogados confirmaram, em termos legais, o que ela havia dito em poucas palavras. A mulher de jaqueta vermelha, o careca, o bigodudo e todos os que participaram ativamente da humilhação receberam a mesma notícia, um a um. Alguns imploraram, outros se indignaram. Nada mudou.
Quando a sala estava quase vazia, restavam apenas três executivos, nenhum dos quais havia proferido uma única palavra cruel, e Clara, ainda segurando seu copo d'água. Sofia olhou para eles.
"Você não participou do programa desta manhã. Isso não significa que eu confie cegamente em você, mas você terá uma chance. Você vai ganhar ou perder dependendo das suas ações."
Então ele olhou para Clara.
—E você — disse ele —, eu gostaria de falar com você a sós.