"Você está me dizendo que esta... garota"—ele apontou para Sofia sem olhar para ela—"é dona de uma das maiores construtoras do país? Por favor!"
Ramos se levantou e caminhou ao redor da mesa até ficar bem perto de Sofia. Ele a olhou como se ela fosse um objeto na vitrine de uma loja de descontos.
“Olha”, disse ele em tom condescendente, “é evidente que houve um engano. Talvez alguém tenha se aproveitado de você. Este é um ambiente de alto nível: MBAs internacionais, executivos altamente qualificados…” Ele fez uma pausa. “Não é lugar para alguém que se veste como se viesse do mercado comum.”
Houve mais risos. O homem de bigode acrescentou:
—Ela nem se deu ao trabalho de se vestir um pouco melhor. Calça jeans, qualquer blusa velha… É ridículo.
Sofia apertou a alça da bolsa com tanta força que as unhas cravaram na palma da mão. Milhares de respostas passaram pela sua cabeça, mas ela decidiu permanecer em silêncio. Por enquanto.
O advogado interveio:
"Se me permite, tudo está explicado nos documentos que tem em mãos. Dom Enrique Valdés Castillo modificou seu testamento três semanas antes de falecer. Oitenta e dois por cento das ações da empresa foram deixadas para a Sra. García. O restante de seus bens pessoais também foi deixado para ela."
As palavras “oitenta e dois” caíram como uma bomba. As risadas cessaram. Ramos pegou os jornais, folheou-os rapidamente e seu rosto começou a empalidecer. A mulher de jaqueta vermelha franziu a testa.
"Enrique estava no hospital", protestou ele. "Doente! Como ele poderia mudar seu testamento?"
—Com plena capacidade mental atestada por três médicos e dois notários—, respondeu o advogado. —Tudo é legal. Ele até gravou um vídeo explicando seus motivos.
"Não há necessidade de assistir a nenhum vídeo", disparou Ramos, agitado. "Isso é um absurdo. Enrique era um visionário. Ele jamais teria deixado sua empresa nas mãos de... um completo estranho."
O advogado mais jovem falou pela primeira vez:
—Ela não era uma estranha. Dom Enrique conhecia a Sra. García pessoalmente. E a apreciava profundamente.
Todos olharam para Sofia como se finalmente tivessem percebido que não iriam acordar daquela "brincadeira".
Ramos cruzou os braços.
"Vamos supor", disse ela entre dentes cerrados, "que isso seja verdade. Mesmo assim", apontou para ela, "você não tem a menor ideia de como administrar uma empresa. Você não consegue administrar isso sozinha. Você precisa de nós."
Sofia sentiu algo estalar dentro dela. Ela olhou para cima e segurou aquilo.
“Você tem razão”, disse ele. “Não sei nada sobre licitações ou fundos de investimento. Mas sei de algo que parece estar em falta por aqui.”
"Ah, é mesmo?" disse Ramos sarcasticamente. "Me explique."
"Eu sei reconhecer o caráter de alguém", respondeu ele. "Sei quando alguém é cruel simplesmente porque pode ser. Sei a diferença entre poder e decência."
O clima ficou tenso. Ramos tentou rir.
—Olha, você não nos conhece. Você não tem o direito de nos julgar.
"Não?" Sofia se levantou. Suas pernas tremiam, mas sua voz era firme. "Quando entrei no prédio, a recepcionista me tratou como lixo. Aqui dentro, me chamaram de louca, me acusaram de ser golpista, ridicularizaram minhas roupas. Nenhum de vocês sabia quem eu era, mas acharam que conheciam meu valor. E decidiram isso em cinco segundos, só olhando para a minha bolsa velha."
Ele se virou na direção dos advogados.
—Acho que está na hora de explicar por que estou aqui.
O advogado sênior assentiu com a cabeça. Sofia respirou fundo.
—Há quatro meses, eu estava saindo do meu turno de limpeza. Passei a noite inteira esfregando escritórios para pessoas que nem sabem meu nome. Na Rua Serrano, vi um homem deitado na calçada. Terno caro, pasta, relógio caro… e a mão no peito. Ele não conseguia respirar.
Alguém bufou, mas desta vez ninguém se atreveu a interrompê-la.