Alguns funcionários diminuíram o passo para observar a cena com curiosidade divertida. Sofia notou as risadinhas deles, aquelas risadinhas que ela conhecia desde a infância: as risadinhas de alguém que se acha superior só porque está usando um terno mais bem passado.
A tentação de dar meia-volta e fugir era tão forte que ela quase deu um passo para trás. Mas ela se lembrou do motivo de estar ali. Lembrou-se do nome que assinava aquele e-mail: o escritório de advocacia Torres & Associados. Lembrou-se da tarde no cartório. Lembrou-se de Enrique.
Ele se obrigou a levantar o queixo.
"Ligue para o 23º andar", disse ela, com uma firmeza que surpreendeu até a si mesma. "Pergunte se meu nome está na lista: Sofía García López. Se não estiver, eu vou embora. Mas se estiver, eu subo, quer você queira ou não."
Houve um segundo tenso. A recepcionista suspirou dramaticamente, pegou o telefone e discou. Enquanto esperava, tamborilava as unhas no balcão. Quando alguém finalmente atendeu, ela disse:
—Cristina, da recepção. Tem uma senhora aqui que disse ter uma reunião executiva no 23º andar. Ela disse que se chama… —ela olhou para Sofia com as sobrancelhas arqueadas—. Sofia Garcia Lopez.
Ele repetiu a frase num tom que claramente esperava uma risada da outra parte. Mas ela não veio. A expressão da recepcionista mudou: primeiro confusão, depois algo próximo ao medo.
—O quê… ela está na lista? Você está esperando por ela?… Sim… eu entendo.
Ele desligou o telefone lentamente e olhou para Sofia como se ela tivesse se tornado, de repente, um problema impossível de classificar.
"Pode subir", murmurou ele. "23º andar. Os elevadores ficam à direita. Alguém vai te receber."
As outras recepcionistas olharam para ela, boquiabertas. Os funcionários curiosos fingiram olhar para seus celulares enquanto Sofia passava por eles.
Enquanto atravessava o saguão, com o coração disparado, um pensamento estranho, quase gélido, lhe ocorreu: "Se me tratam assim sem saber quem eu sou... como me tratariam se soubessem a verdade?"
Ela ainda não sabia que, em menos de uma hora, as mesmas pessoas que a viam como lixo ririam na sua cara ao ouvirem a frase que mudaria o rumo de suas vidas: "Senhoras e senhores, ela é a nova dona da empresa."
O 23º andar cheirava a café caro e ar condicionado. As paredes claras, o piso de madeira e as pinturas modernas pareciam dizer: "Só pessoas importantes vêm aqui". Sofia sentiu-se, mais uma vez, como uma intrusa num filme que não era o seu.
Uma jovem de terno cinza aproximou-se em passos rápidos.
"Sofia Garcia Lopez?", perguntou ele.
-Sim.
"Sou Daniela, do escritório de advocacia Torres & Associados. Fico feliz que esteja aqui. A reunião está prestes a começar. Devo avisá-lo", ela baixou a voz, "muitos ficarão surpresos ao vê-lo. Mas você tem todo o direito de estar aqui. Não se esqueça disso."
Ele a conduziu até uma porta de vidro com uma placa discreta: “Sala de Reuniões Executivas Privada”. Do outro lado, ela podia ouvir risadas confiantes e o tilintar de xícaras e pires.
Quando Daniela abriu a porta, o murmúrio cessou abruptamente.
Dez pessoas estavam sentadas ao redor de uma mesa enorme. Ternos impecáveis, relógios que custavam mais do que ela ganharia em vinte anos, a aparência de quem está acostumado a ser obedecido. Na cabeceira da mesa, um homem na casa dos quarenta, com cabelos grisalhos nas têmporas, vestindo um terno azul-marinho, com uma expressão imponente: o CEO, Ramos.
Dois advogados do escritório, um mais velho e um mais jovem, estavam de pé ao lado de uma tela. O mais velho apontou para uma cadeira.