Ricardo beijando a barriga de Laura. O "casamento secreto" deles. A confissão dele sobre o desvio de fundos da minha empresa. O riso dele diante da minha generosidade. Tudo isso, nítido e impiedoso em 4K.
Cinco minutos que pareceram cinco vidas.
Então, recuei, passo a passo, engolindo os soluços que me apertavam a garganta. Numa sala de espera vazia, finalmente me sentei, assistindo ao vídeo gravado na tela.
Lágrimas caíram, por um instante.
Enxuguei-as com a palma da mão.
Chorar era inútil.
"Então, todo esse tempo..." sussurrei, minha voz tremendo enquanto o amor se transformava em algo mais frio. "Eu estava dormindo com uma cobra."
Laura, a amiga que eu tratava como uma irmã, era uma sanguessuga com um sorriso. Lembrei-me das suas lágrimas fingidas quando disse que não tinha dinheiro para comida, e de como lhe tinha dado um cartão de crédito extra. Lembrei-me das desculpas de Ricardo para as "horas extras", provavelmente passadas na casa que ele possuía, com a mulher que ele estava a acolher.
A dor endureceu como gelo.
Abri a aplicação do meu banco. Tinha acesso total a tudo, incluindo a conta de investimentos que Ricardo "geria", porque eu era a verdadeira dona principal. Os meus dedos moveram-se rapidamente.
Verificando o saldo dele.
30.000 euros que deviam ser fundos para o projeto.
Analisando as transações.
Transferências para boutiques. Joias. Uma clínica de ginecologia em Segóvia.
"Aproveite o seu riso", sussurrei. "Enquanto ainda pode."
Não os ia confrontar naquela sala. Seria demasiado fácil: lágrimas, súplicas, desculpas, teatro barato.
Não.