Senti como se um raio tivesse atingido meu peito.
Ricardo pousou o prato e apertou as mãos de Laura, beijando seus nós dos dedos como se ela fosse da realeza.
"Tenha paciência. Se eu me divorciar da Sofia agora, vou perder tudo. Ela é inteligente, tudo está no nome dela. O carro, o relógio, o capital do projeto... é tudo dinheiro dela." Ele deu uma risadinha, quase admirando minha utilidade. "Mas não se preocupe. Estamos casados em segredo há dois anos."
Laura fez beicinho. "Então você vai continuar sendo o parasita dela? Você disse que tinha orgulho."
Ricardo riu, um som casual e confiante.
"Exatamente porque tenho orgulho. Primeiro, preciso de mais capital. Tenho desviado dinheiro da empresa dela para a minha conta: estouros de orçamento, projetos fajutos. Espere só. Quando tivermos economizado o suficiente para nossa própria casa e negócio, vou expulsá-la. Estou cansado de fingir ser legal com ela. Ela é controladora. Você é melhor... você é submissa."
Laura deu uma risadinha.
A casa em Segóvia é segura? Sofia não vai reivindicá-la?
"É segura", disse ele. "A escritura ainda não está no meu nome, mas Sofia é ingênua. Ela pensa que a casa está vazia. Ela não sabe que a 'pobre amiga' que ela está ajudando é a rainha no coração do marido."
Eles riram juntos, alegres, despreocupados, cruéis.
Apertei a cesta de frutas com tanta força que a alça cravou na minha pele. Eu queria arrombar a porta. Queria arrancar os cabelos dele, esbofeteá-lo até que ele se esquecesse de como mentir.
Mas uma voz — um velho conselho que eu ouvira uma vez — atravessou minha fúria:
Se um inimigo atacar, não lute com emoção. Ataque quando ele menos esperar. Destrua os alicerces e depois derrube o prédio inteiro.
Minha mão trêmula foi até o bolso. Peguei meu celular novo, silenciei-o e liguei a gravação de vídeo. Com cuidado, apontei a lente pela fresta.