E a voz de um homem, quente, zombeteira, dolorosamente familiar, interrompeu meu fluxo sanguíneo.
“Abra a boca, querida. Lá vem o aviõezinho…”
Meu estômago se contraiu. Aquela voz havia beijado minha testa naquela manhã. Aquela voz havia me prometido Valência.
Não. Não podia ser.
Tremendo, fui até a fresta da porta e prendi a respiração enquanto espiava lá dentro.
A cena me atingiu como uma marreta.
Laura estava sentada ereta na cama, saudável, radiante, nada pálida. Ela vestia um pijama de cetim, não uma camisola de hospital. E sentado ao lado dela, alimentando-a com fatias de maçã com terna paciência, estava Ricardo.
Meu marido.
Seus olhos eram suaves, devotados da mesma forma que eram quando éramos recém-casados.
“Minha esposa é tão mimada”, murmurou Ricardo, limpando o canto da boca de Laura com o polegar.
Minha esposa.
O corredor pareceu inclinar. Tive que me apoiar na parede para que meus joelhos não cedessem.
Então a voz de Laura, doce, plangente, íntima, flutuou como veneno.
“Quando você vai contar para a Sofia?” Estou cansada de me esconder. E agora estou grávida de apenas algumas semanas. Nossa filha precisa ser reconhecida.
Grávida.
Nossa filha.