Cada vez que eu dizia sim, sentia algo dentro de mim encolher. Mas a culpa era mais forte do que esse encolhimento. Fui criada acreditando que amar significava assumir a responsabilidade, mesmo quando minhas pernas fraquejavam sob o peso.
Boston pode ter sido minha casa agora, mas Lancaster era a mão que sempre segurava meu tornozelo, impedindo-me de subir muito alto.
Eu estudava entre os turnos, desabando na cama à noite sem me lembrar de como tinha chegado em casa. Escrevia trabalhos com os olhos semicerrados, bebia café demais e ignorava as dores de cabeça latejantes atrás dos meus olhos. Meus colegas achavam que eu era ambiciosa. Meus professores achavam que eu era determinada.
A verdade era ainda mais feia. Eu não sabia como parar de me mexer. Se parasse, temia nunca mais conseguir me levantar.
Os meses que antecederam a formatura se misturaram numa névoa. Eu fazia horas extras no café sempre que a Chloe ligava, chorando por causa do aluguel. Trocava turnos no hospital quando meus pais diziam que estavam com pouca comida. Tentava fazer meu salário render como um elástico, tão fino que quase arrebenta.
Às vezes, quando o peso ficava muito grande, Serena me pegava debruçado sobre a mesa.
“Você parece que não dorme há anos.”
Dei de ombros.
“Parece preciso.”
Ela não riu.
Evan também percebeu. Certa vez, depois que quase tropecei no pronto-socorro, ele se aproximou mais do que o normal, com os olhos semicerrados.
“Sente-se.”
“Sério, estou bem.”
"Você não está."
Eu queria acreditar que estava. Eu precisava acreditar nisso. Porque a alternativa era aterrorizante — a ideia de que eu estava desmoronando e ninguém de casa me ampararia.
Miguel continuava se oferecendo para cobrir turnos, pressentindo algo que eu não admitiria.
"Tire o dia de amanhã de folga", ele dizia, me empurrando gentilmente em direção à porta. "Você está começando a definhar."
Desvanecer. Era a palavra certa.
No último mês do meu programa, o declínio cognitivo tornou-se mais difícil de esconder. Minhas mãos tremiam quando eu anotava os sinais vitais. Sentia tonturas se me levantasse muito depressa. Às vezes, o mundo ao meu redor ficava muito nítido, como se o brilho de tudo tivesse sido aumentado, e meu coração disparava em sinal de alerta.
Ignorei todos os sinais. Eu dizia para mim mesmo:
"Só precisa terminar a formatura. Depois disso, você pode descansar."
Mas descansar era impossível com as ligações de Lancaster iluminando minha tela toda semana.
Certa noite, depois de um turno brutal sem fim, desabei numa cadeira da sala de descanso e peguei meu celular. Uma nova notificação piscou. Chloe tinha me marcado. Toquei nela, esperando algo inofensivo.
Em vez disso, vi uma foto da minha família reunida no quintal — sol, pratos de comida, todos radiantes como se não tivessem tido nenhuma preocupação no mundo. A legenda dizia:
“Dia em família sem drama.”
Senti um aperto no estômago. Não era raiva, apenas uma dor fria e oca, uma sensação profunda no peito como se algo estivesse se partindo. Não comentei. Não liguei. Apenas desliguei a tela e pressionei o polegar na borda da mesa até doer.
Naquela noite, voltando para casa, a calçada cedeu sob meus pés. Minha visão oscilou. Segurei-me no corrimão e esperei que o mundo se estabilizasse. Meu pulso batia tão forte que eu o sentia nos dentes.
Eu dizia a mim mesma que era exaustão. Mas uma vozinha dentro de mim sussurrou a verdade.
Algo está quebrando.
E eu sabia, mesmo naquela época, que não pararia até que isso acontecesse.
A voz que sussurrava que algo estava se quebrando não desapareceu. Ela me seguia como uma sombra — silenciosa, mas insistente — infiltrando-se nas margens de cada turno, cada aula, cada hora. Eu tentava extrair mais vida de um corpo que não tinha mais nada a oferecer.
Na manhã seguinte àquela tontura na calçada, acordei com o alarme tocando às 5h30, meu coração disparado como se eu tivesse corrido dormindo. Sentei na beirada da cama, com os cotovelos nos joelhos, respirando devagar para me convencer de que conseguiria ficar de pé. O quarto não estabilizou imediatamente. Levou um minuto inteiro até que as paredes parassem de se mover.
Mas mesmo assim fui trabalhar. Pessoas como eu não desistem. A gente segue em frente. A gente continua.
No hospital, a luz fluorescente era muito forte. Sempre foi, mas ultimamente parecia que atravessava meu crânio. Serena me viu entrar e franziu a testa imediatamente. Ela não precisava ouvir uma palavra para saber que algo estava errado.
“Você está pálida”, disse ela, pegando um copo do dispenser. “E não venha com esse discurso de que estou bem. Eu inventei esse discurso.”
Tentei sorrir.
“Noite difícil.”
Ela despejou água quente sobre um saquinho de chá e o enfiou em minhas mãos.
Para obter o passo a passo completo do preparo, acesse a próxima página ou clique no botão "Abrir" (>) e não se esqueça de compartilhar com seus amigos do Facebook.