Às onze da manhã, liguei para Isabel , uma velha amiga e advogada rural que vinha me dizendo a mesma coisa há anos:
—Margarita, proteja a fazenda antes que alguém a tome de você.
Naquele mesmo dia, peguei o ônibus para a aldeia.
Sentada em frente a Isabel, com os documentos espalhados sobre a mesa, compreendi algo com absoluta clareza: o amor de uma mãe não pode ser uma sentença de prisão perpétua .
"Quero proteger a propriedade", eu lhe disse. "Legalmente. Para que ninguém possa usá-la, vendê-la ou hipotecá-la sem o meu consentimento."
Isabel assentiu com a cabeça.
"Essa foi a coisa mais sensata que você fez em anos."
Criamos um fundo fiduciário para a fazenda familiar . A fazenda estaria protegida enquanto eu vivesse. Marcos continuaria sendo meu filho, mas não teria nenhum poder sobre a terra ou sobre mim . Se ele demonstrasse estabilidade, respeito e responsabilidade, poderia trabalhar lá. Não dar ordens. Trabalhar.
Voltei para casa ao entardecer. Marcos estava sentado na cozinha, com os olhos vermelhos e o rosto abatido.
"Mãe..." ela disse baixinho. "Lucía me deixou. Ela me culpa por tudo."
Não senti satisfação. Nem tristeza. Senti algo novo: um distanciamento saudável .
"Isso não é da minha conta", respondi. "O que me interessa é que você me bateu."
Sua voz falhou.
— Eu não sei o que aconteceu comigo…
"Sim, você sabe disso", eu disse firmemente. "Você escolheu a violência. E isso tem consequências."
Durante semanas, Marcos frequentou terapia obrigatória e cooperou com a investigação. Ele não foi preso, mas perdeu o emprego e a reputação. Eu não interferi. Não liguei para ninguém. Não acobertou os erros dele.
Pela primeira vez, deixei que ele aprendesse .
Entretanto, a fazenda começou a respirar novamente. Contratei dois jovens agricultores da aldeia. Comecei a caminhar entre os arbustos todas as manhãs. Minhas mãos, embora velhas, ainda sabiam exatamente o que fazer.
Certa tarde, Marcos se aproximou de mim no campo.
—Posso ajudar?
Olhei para ele por um longo tempo.
"Se você está aqui para dar ordens, não.
" "Não", ele respondeu. "Apenas... para trabalhar."
Dei-lhe uma tesoura.
— Comece por aí.
Não foi um perdão imediato. Foi algo melhor: um novo começo .
Meses depois, o juiz encerrou o processo principal. Lucía foi condenada por fraude. Marcos foi libertado, mas com antecedentes criminais e uma lição que jamais esqueceria.
Certa noite, sentado em frente à lareira, ele olhou para mim e disse:
"Obrigado por não me expulsar."
Veja a continuação na próxima página.