No caminho para o topo da montanha, meu filho e minha nora de repente nos empurraram, a mim e ao meu marido, de um penhasco…
Desabamos, exaustos, no acostamento de cascalho da estrada. O SUV havia sumido. O silêncio era ensurdecedor.
Robert respirava superficialmente. "Precisamos de um plano", disse ele com a voz rouca.
Olhei para a estrada. "A cabana. Eles vão até lá. Vão pensar que estamos mortos, mas não podemos deixar que destruam tudo."
— Não — respondeu Robert secamente. — A cabana é propriedade deles. Se levantarmos suspeitas, eles estarão à nossa espera. Desceremos a montanha em direção à rodovia. Alguém vai parar para nos dar carona.
Cada passo doía, mas continuamos. Minha mente se enchia de imagens dos olhos frios de Daniel, da ordem seca de Emily. Eu queria gritar, desabar, mas sabia que Robert tinha razão: se descobrissem que estávamos vivos, terminariam o que começaram.
Ao cair da noite, faróis apareceram à distância. Acenei freneticamente com os braços e uma caminhonete parou. O motorista, um homem de meia-idade vestindo uma camisa de flanela, saltou para fora, perplexo.
—Jesus! O que aconteceu com eles?
"Nós caímos", disse Robert, com a voz embargada. "Por favor, levem-nos ao hospital."
Sob a luz estéril da sala de emergência, horas depois, enquanto enfermeiras suturavam feridas e médicos analisavam radiografias, fiz uma promessa silenciosa.
Daniel e Emily pensaram que tinham acabado conosco. Mas subestimaram a força de dois corpos destroçados, movidos pela traição e pelo amor.
Quando Robert adormeceu sob o efeito dos remédios, eu fiquei acordada, olhando para o teto.
Eles queriam que desaparecêssemos. Buscavam vingança. Mas a verdade já havia vindo à tona e, em breve, muito em breve, teriam que responder pelo preço de suas decisões.
E quando esse dia chegar, eu não serei a mãe implorando pelo amor do filho. Serei a mulher que sobreviveu à sua traição.
O zumbido das máquinas do hospital estabelecia um ritmo lento, quase hipnótico. Mas dentro de mim, nada estava calmo. Uma corrente elétrica queimava sob minha pele, a mesma que senti quando, do fundo daquele desfiladeiro, ouvi a voz do meu próprio filho dizendo:
—Eles estão mortos?
Essas palavras não desapareceram; elas se enraizaram mais profundamente a cada respiração.
Robert estava dormindo, exausto, ligado a um soro e tomando analgésicos. Eu, por outro lado, estava acordada. Algo dentro de mim havia se quebrado… e algo novo estava se formando nas rachaduras.
Eram quase três da manhã quando um dos policiais designados para o hospital se aproximou da minha cama.
"Sra. Carter", disse ele em voz baixa, "precisamos lhe fazer algumas perguntas. Seu acidente... não faz sentido."
Acidente.
Quase soltei uma risada amarga.
Eu o observei, sério.
"Senhor policial, se quiser saber o que aconteceu, terá que esperar. Meu marido..." Olhei para Robert, "...precisa que eu esteja aqui."
Ele baixou a voz e inclinou-se ligeiramente para a frente.
—Entendo. Mas tem mais uma coisa. Seu filho estava na estação há uma hora.
Meu coração parou por um instante.
—Daniel?
—Sim. Ele apresentou uma queixa.
Meu sangue gelou.
—Qual é a queixa?
—Que você e seu marido desapareceram nas montanhas. Que você teme ter… tomado uma decisão drástica.
Minha respiração tornou-se um fio.
Daniel estava criando o álibi perfeito.
Encarei o policial, tentando não deixar que ele percebesse o tremor em minhas mãos.
"Obrigada", sussurrei. "Deixe-me... processar isso."
Enquanto ele se afastava, senti o chão ceder sob meus pés. Daniel não apenas tentara nos matar; ele já estava arquitetando uma narrativa para o mundo. Ele e Emily foram mais rápidos do que eu imaginava.
Horas depois, Robert abriu os olhos. A dor estava estampada em seu rosto, mas ainda mais profundo era o medo.
—Maggie… temos que agir antes que eles ajam.
Eu me aproximei.
—A polícia diz que Daniel registrou uma queixa. Ele está preparando sua versão dos fatos.
Robert fechou os olhos em desespero.
"Ele acha que estamos mortos. E quando descobrir que não estamos... não haverá uma segunda chance. Ele vai fazer parecer um acidente, ou pior."
Ele pegou na minha mão.
"Precisamos nos antecipar a isso. E não podemos confiar em ninguém, nem mesmo na polícia local. Emily tem família nos círculos errados. E Daniel... ele sempre foi o mais inteligente da família. Subestimá-lo seria nossa ruína."
Assenti com a cabeça, engolindo uma mistura de tristeza e raiva.
—O que você sugere, Robert?
Ele respirou fundo, como alguém que se prepara para arrancar um espinho velho e enterrado.
—Encontre alguém que me deva um favor. Alguém que nem Daniel nem Emily conheçam. E conte tudo a essa pessoa. Alguém que possa usar sua influência sem deixar rastros.
Eu fiquei olhando para ele.
—Você está falando sobre…?
—Sim. Eles.
A palavra ficou pairando no ar.
Não precisávamos dizer mais nada.
Era a parte do passado de Robert que eu sempre preferira esquecer.
Às 2h17 da manhã seguinte, enquanto Robert dormia profundamente, ouvi um barulho no corredor do hospital.
Nenhum passo.
Nenhuma voz.
Apenas um silêncio repentino, daquele tipo que surge quando alguém tenta não fazer barulho.
Meu corpo ficou tenso.
A sombra debaixo da porta mudou de forma. Ela se moveu.
Então, uma mão testou a maçaneta.
Lentamente.
Quase imperceptivelmente.
Meu sangue gelou.
Ela não era enfermeira.
Ela não era médica.
Ela era alguém que não queria ser vista.
Levantei-me, apesar da dor aguda nas costelas.
Peguei a cadeira de metal ao lado da minha cama.
A alavanca se moveu novamente.
Meus dedos se fecharam com mais força em torno do metal frio.
E assim que a dobradiça começou a fazer um leve rangido…
"Quem está aí?" perguntei em voz firme, mais alta do que eu me sentia por dentro.
A sombra parou.
Silêncio.
Então, passos apressados se afastaram.
Meu coração batia como um tambor.
Estendendo a mão em direção à cama de Robert, sacudi-o gentilmente.
—Robert… alguém esteve aqui.
Seus olhos se abriram como se ela nunca tivesse dormido.
"Temos que ir", murmurou ele. "Agora."
Saímos do hospital antes do amanhecer, vestindo roupas emprestadas e com um plano improvisado. O motorista que nos encontrou na montanha concordou em nos levar a um local discreto, longe de olhares curiosos. Era uma antiga oficina abandonada nos arredores da cidade.
Robert discou um número de um telefone que não era seu.
Um número que parecia despertar um fantasma.
"Sou eu", disse ele simplesmente. "Preciso de um favor."
Do outro lado da linha, houve silêncio.
Então uma voz grave respondeu:
—Pensei que você estivesse morto.
"Eu também", respondeu Robert. "Mas é isso que eles querem que aconteça. Precisamos de proteção. E de provas. Muitas provas."
A voz suspirou.
—Dê-me a localização.
Quando Robert desligou o telefone, ficou parado por um instante.
—Maggie… tem mais uma coisa.
Olhei para ele com cansaço.
-Avançar?
Ele baixou o olhar.
—Eu não denunciei apenas o pai da Emily. Eu também… denunciei outra pessoa.
Meu coração afundou.
"Para quem?"
Robert ergueu o olhar.
Seus olhos tinham um peso que eu nunca havia visto nele antes.
—Para o pai de Daniel.
Fiquei paralisado.
—O que você está dizendo? O quê…?
Robert engoliu em seco.
—Daniel não é meu filho.
O silêncio tornou-se tão profundo que senti como se me tivesse cortado o ar.
“Eu tinha medo de te perder”, continuou ele. “Você estava grávida quando te conheci, mas eu… eu te amava. Fiz o que achei necessário para te manter comigo. E quando o pai de Daniel cometeu um erro… eu o denunciei também.”
O ar ao meu redor ficou denso, irrespirável.
"Robert...
" Minha voz tremeu. "
Daniel me odeia... por causa de algo que você fez.
Mas quem deveria saber a verdade... era ele. Não Emily. Ele!"
Minhas mãos estavam tremendo.
E naquele momento eu entendi algo:
Daniel sempre sentiu que o mundo lhe devia explicações.
Toda a sua vida ele buscou uma razão para sua dor.
E Emily... deu-lhe um nome.
Um inimigo.
O inimigo era Robert.
Mas o erro foi meu.
Fui eu quem nunca lhe contou a verdade.
Traição, ódio, ruína…
Tudo estava interligado por fios que eu mesmo havia permitido que fossem tecidos.
Meu filho não apenas me jogou no vazio.
Ele também vinha caindo há anos.
E ninguém o pegou.
Senti uma determinação fria percorrer meu corpo.
"Robert", eu disse, "não vamos nos esconder."
-O que você está dizendo?
—Vamos fazer algo pior do que sobreviver.
Vamos contar a verdade. Toda a verdade.
—Maggie…
—Daniel acha que nos matou. Perfeito.
Isso significa que ele não poderá se esconder quando vir que ainda estamos vivos.
E quando a verdade vier à tona sobre o pai dele, sobre Emily e sobre o que aconteceu com você…
a máscara cairá.
Endireitei-me, ignorando a dor.
—Não sou mais a mulher que o criou com medo de perdê-lo.
Sou a mulher que sobreviveu à sua traição.
E agora eu quero a verdade.
Toda a verdade.
E não descansarei até que o mundo a veja.
Robert olhou para mim como se entendesse pela primeira vez o tipo de força que eu possuía.
—Então —disse ele lentamente—, começamos a guerra.