Na véspera de Natal, minha filha Elena me ligou enquanto arrumava a mesa no meu apartamento. O ar cheirava a alecrim e batatas assadas. Eu havia comprado um corte modesto de carne e o preparei com cuidado, como se faz quando a refeição é menos uma celebração e mais uma rotina.
"Papai", disse Elena com carinho e alegria, "como você está gostando do apartamento à beira do lago em Muskoka que o Adrian comprou para você?"
Fiz uma pausa, com um prato na mão. Muskoka. Beira do lago. Apartamento. Nenhuma dessas palavras combinava com a minha vida. Não combinavam com a minha agenda, o meu orçamento ou a minha memória.
"Elena", eu disse suavemente, "nunca estive num apartamento."
Uma risada breve, educada e desdenhosa veio do outro lado da linha. "Pai, não precisa fazer tanto alarde. Adrian disse que você finalmente subiu e adorou a paz e o silêncio."
"Não", respondi. "Não sei onde fica."
O silêncio que se seguiu não foi longo, mas foi denso. Ela conseguia ouvir música e vozes atrás de si: o tilintar de copos, pessoas se movimentando em um amplo espaço. Elena e Adrián estavam celebrando a véspera de Natal em sua nova casa, aquela com janelas altas e cômodos que ecoavam.
"Isso não faz sentido", disse Elena lentamente. "Ele me mostrou fotos. Ele disse que você ligou para agradecê-lo."
"Eu me lembraria disso", eu disse. "E eu o agradeceria."
Ela cobriu o telefone. Ouvi a voz de Adrian ao fundo, suave e reconfortante. "Quem é?", perguntou ele.
Elena atendeu o telefone. "Pai, fique comigo. Não desligue."
Então Adrian falou, gentil como sempre. "Peter", disse ele. "Feliz Natal. Ouvi dizer que houve alguma confusão."
"Não é confusão", respondi. "Nunca estive lá."