Eu nunca contei à minha família quem eu realmente era. Para eles, eu ainda era Valérie Moreau, a garota que abandonou a escola, aquela que "não tinha dado em nada". E por anos, deixei essa versão dos fatos existir porque ela me protegia. Até este jantar de Natal.
A sala de jantar cheirava a peru assado demais e tempo congelado. Esse cheiro não havia mudado desde o final dos anos 90, assim como as opiniões de quem estava sentado à mesa. Eu ocupava a ponta da mesa, o "lugar das crianças", embora tivesse vinte e seis anos. Em meus braços, meu filho de três meses, Mathéo, se remexia inquieto. Ele era a única coisa genuína e afetuosa naquele cômodo.
Eu vestia um macacão azul-marinho que eu mesma havia costurado com retalhos de cashmere. Para qualquer outra pessoa, era apenas uma peça de roupa. Para alguém que soubesse apreciar o que via, era uma elegância discreta. Mas ali, ninguém sabia apreciar o que via.