Meus pais chegaram e meu rosto estava coberto de hematomas. Meu marido ficou ao meu lado e riu.

"Yanna, sou eu... Dima."
Fiquei em silêncio.
"Disseram-me que tenho de fazer um curso", continuou ela suavemente. "Um psicólogo. Grupos. Eu... eu entendi muita coisa."
"Que bom", respondi calmamente. "Por você."
"Não quer conversar?" Um lampejo de esperança surgiu em sua voz.
"Não", eu disse. "Não preciso explicar mais nada sobre por que estou sofrendo."
Apertei o botão "desligar" e percebi: nada se agitava dentro de mim. Nem pena. Nem medo. Nem a vontade de me justificar.
No outono, fui à casa da minha avó, a mesma onde costumava passar as férias. Sentei-me num banco velho perto da varanda e, de repente, desabei em lágrimas. Não de dor, mas de alívio. Eu finalmente era eu mesma. Não era esposa, não me sentia culpada, não era um incômodo. Eu estava simplesmente viva.
Depois de um tempo, comecei a ajudar outras pessoas. No início, por acaso: um conhecido contou para um amigo, que contou para outro. As mulheres vinham até mim, tomavam um gole de chá e cochichavam, como se tivessem vergonha da própria dor. Eu as ouvia. Não dava conselhos a menos que me pedissem. Eu simplesmente dizia: "Eu acredito em você".
E a cada vez, eu as via se endireitar.
Às vezes, penso naquela versão de mim: de roupão, machucada, parada no corredor mentindo para meus pais. Quero abraçá-la e dizer: "Você não é fraca. Você só ficou calada por tanto tempo".
Agora, as luzes da casa geralmente estão acesas. Amigos vêm me visitar. Eles riem. Às vezes, eu rio com eles, alto, sem olhar para trás. E se alguém me pergunta se me arrependo do passado, respondo honestamente:
"Não.
Porque ele me ensinou a coisa mais importante:
ninguém tem o direito de te destruir, mesmo que você um dia tenha chamado isso de amor".

No inverno, a casa parecia especialmente iluminada. Não por causa das lâmpadas, mas pela sensação de que eu não estava mais me escondendo de ninguém. Parei de tremer ao receber ligações, parei de justificar minhas decisões e parei de me perguntar: "E se eu estiver errada?".

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