Meus pais chegaram e meu rosto estava coberto de hematomas. Meu marido ficou ao meu lado e riu.

"Não mais", respondi. "O pior já passou."
Quando a porta se fechou atrás deles, afundei lentamente em uma cadeira. Minhas pernas tremiam, mas por dentro eu sentia um estranho alívio. Como se finalmente tivesse emergido após um longo e sufocante mergulho.
Minha mãe me abraçou forte, sinceramente.
"Sinto muito por não ter vindo antes..."
"O que importa é agora", eu disse.
Lá fora, a chuva começou a diminuir. E naquele silêncio, pela primeira vez em muitos anos, senti: havia vida pela frente.

Nos primeiros minutos depois que eles saíram, a casa pareceu estranha. Silenciosa demais. Espaçosa demais. Sentei-me na cozinha, segurando uma xícara de chá gelado, e me peguei esperando ouvir a porta bater, a voz deles. Meu corpo se lembrava do medo, mesmo que minha mente soubesse que ele não tinha mais poder sobre mim.
"Tem certeza de que quer ficar aqui?", perguntou minha mãe baixinho.
"Sim", respondi depois de um tempo. "Preciso ficar."
Eles saíram ao anoitecer. Meu pai ficou parado perto da porta por um longo tempo, observando a casa, como se estivesse de guarda invisível. Tranquei a porta e, pela primeira vez em anos, não esperei que alguém entrasse sem avisar. Não consegui
dormir naquela noite. Sentada na cama com a luz acesa, revisei documentos. Certificados, extratos, comprovantes de transferência. Cada pedaço de papel era como um prego cravado na tampa do passado. Minhas mãos tremiam, mas uma sensação estranha crescia dentro de mim: eu estava fazendo tudo certo.
De manhã, o telefone tocou.
"Yanna, é a Olga."
Fiquei tensa. "Eu... eu não quero ter nada a ver com ele", disse ela apressadamente. "Eu não sabia que ele era casado. Ele disse que estavam morando separados, que tudo tinha acabado há muito tempo. Quando vi suas mensagens... e fotos... fiquei com medo. Estou pronta para confirmar tudo. As transferências, as conversas. Já registrei um boletim de ocorrência."

Fechei os olhos.

"Obrigada", eu disse baixinho. "Isso é importante."

Dois dias depois, Dima foi convocado para uma entrevista. Ele me ligou sem parar: primeiro ameaçando, depois implorando, depois gritando de novo. Eu não atendi. O número dele estava na lista negra, assim como o da mãe dele.

Para ver os tempos de cozimento completos, vá para a próxima página ou clique no botão (>) e não se esqueça de COMPARTILHAR com seus amigos do Facebook.