Meu marido gritou: "Saiam daqui!" A mãe dele riu. Na manhã seguinte, eles não podiam acreditar no que viam...

O diretor perguntou, aproximando o microfone. A menina olhou para a plateia, confusa, depois procurou a mãe e, de repente, falou com uma voz clara e confiante: "Eu desenhei a noite e as estrelas, eu e minha mãe. Estamos olhando para as estrelas e fazendo um pedido: que tudo corra bem para nós, e ele se realizará porque estamos juntas." Um silêncio se instalou na sala. Aquelas palavras simples, ditas por uma criança, tocaram a todos. Uma mulher na primeira fila tirou um lenço e enxugou as lágrimas.

David Romero pigarreou e disse: “Obrigado, Lucía. Seu desenho é realmente especial, e tenho o prazer de anunciar que você está convidada a estudar gratuitamente em nossa escola de arte a partir de setembro. Até lá, você pode frequentar as aulas preparatórias duas vezes por semana.” Parabéns. Elena não conseguia acreditar. Elas tinham conseguido. Elas realmente tinham conseguido. Ela olhou para a filha em pé no palco com o diploma na mão e sentiu os olhos se encherem de lágrimas, mas não eram lágrimas de amargura como antes, e sim lágrimas de alegria e orgulho.

Após a cerimônia, uma mulher de meia-idade, vestindo um elegante terno, aproximou-se deles. "Olá, sou Laura Campos, jornalista do jornal La Crónica de la Ciudad. Estamos fazendo uma matéria sobre o concurso e gostaria de fazer uma breve entrevista com a vencedora e sua mãe. Vocês se importariam?" Elena sentiu-se sobrecarregada. Não estava preparada para a atenção da mídia, para que sua história fosse publicada no jornal. E se Carlos ou sua sogra lessem? Mas seria constrangedor recusar.

E Lucía já se sentia entusiasmada, lisonjeada com a atenção. “Há quanto tempo Lucía desenha?”, perguntou a jornalista, ligando o gravador. “Minha filha desenha desde muito pequena”, respondeu Elena cautelosamente, decidindo não entrar em detalhes sobre sua situação, “mas só recentemente começou a levar a coisa a sério”. Lucía, abraçando alegremente sua caixa de tintas, acrescentou: “Eu gosto de desenhar estrelas, pessoas e animais também”. A entrevista foi curta e sem incidentes. Laura Campos anotou seus nomes e tirou uma foto de Lucía com seu desenho.

“O artigo estará na edição de amanhã. Não se esqueça de comprar o jornal para guardar como lembrança”, disse ela ao se despedir. Elas voltaram para casa no último ônibus. Lucía, exausta pela emoção e alegria, adormeceu no ombro da mãe. Elena olhou pela janela para as luzes da cidade e refletiu sobre como o destino pode ser estranho às vezes. Apenas um mês antes, ela era uma mulher miserável, jogada na rua com a filha, e hoje se sentia orgulhosa de si mesma e de sua filhinha.

“Isto é só o começo”, sussurrou ela, acariciando os cabelos de Lucia. Na manhã seguinte, Elena levou a filha para a casa de Beatriz e foi trabalhar na cantina. A Sra. Rosa, que já tinha ouvido falar da vitória de Lucia, cumprimentou-a com um carinho incomum. “Parabéns, todos estão falando da sua filha, que talento! Quem diria que tínhamos pessoas assim entre nós?” Elena sorriu modestamente e começou a trabalhar. Depois do almoço, subiu até a redação do jornal com a ilustração pronta para a matéria sobre veteranos.

Dom Julián examinou o desenho por um bom tempo. Um retrato de um operário aposentado com os prédios da fábrica ao fundo. Perfeito. Exatamente o que ele precisava. "Sabe", disse ele, "ouvi falar da sua filha. A fábrica inteira está comentando sobre a moça que ganhou o concurso da cidade. O talento claramente corre no sangue da família." Ele piscou. "Podemos oferecer a ela um cargo fixo. Ilustrações, design, às vezes diagramação. Meio período, três dias por semana."

Ela conseguiria conciliar com o trabalho na cantina. Elena não conseguia acreditar na sua sorte. Tudo estava indo muito bem. Em apenas um dia, uma vaga na escola de arte para Lucía e um novo emprego para ela. Na hora do almoço, comprou o jornal da cidade. O artigo sobre o concurso era breve, na terceira página, mas incluía uma foto de Lucía com seu desenho. "Jovem promessa: artista de 6 anos conquista o júri do concurso municipal", dizia a manchete.

Elena leu com emoção a breve nota que mencionava que Lucía Soler, sob a tutela de Beatriz Morales, uma antiga professora de música, demonstrara um senso de composição e cor surpreendente, incomum para sua idade. Ela comprou vários exemplares do jornal para guardar como lembrança. Um para Lucía, outro para Beatriz, outro para Marta e para as outras mulheres da residência que as sustentavam. A vida começou a se encaixar aos poucos. O trabalho no jornal não só lhe proporcionava uma renda extra, como também satisfação pessoal.

Ela sentia que estava voltando a ser ela mesma, aquela menina que um dia sonhara em ser artista. Lucía frequentava a escola de arte duas vezes por semana para aulas preparatórias e voltava radiante, cheia de novas ideias e desenhos. Seu pequeno quarto se transformou. As paredes estavam cobertas de desenhos, tanto de Lucía quanto de Elena. Os vizinhos trouxeram plantas, decorações, livros — tudo o que podiam. Dona Rosa lhes deu um antigo abajur que guardava no depósito.

Marta costurou cortinas novas para elas com um tecido de cores vibrantes. Beatriz deu-lhes um tapete antigo, mas de boa qualidade. Juntas, transformaram aquele pequeno espaço num ninho aconchegante. Três meses se passaram. O inverno deu lugar à primavera, a neve derreteu e o sol começou a aquecer o ambiente. Lucía se preparava para começar a primeira série, sem deixar de desenhar. Seus trabalhos frequentemente apareciam em exposições de arte infantil, na escola de arte e até mesmo no museu da cidade.

Ainda não havia notícias de Carlos. Às vezes, Elena acordava à noite com pensamentos inquietantes. Como ele estaria? Por que não ligava? Tinha sido tão fácil apagá-los de sua vida. Mas então ela olhava para a filha dormindo e entendia que precisava deixar o passado para trás. Agora, cada uma tinha seu próprio caminho. Um dia, em abril, enquanto Elena trabalhava na redação, bateram à porta. Era Clara, a senhora idosa que as ajudara durante o período mais difícil. "Olá, linda."

Resolvi dar uma passadinha para ver vocês. Como estão todos? Faz tanto tempo que não nos vemos. Eu estava no hospital. Fiz uma cirurgia no joelho. A idade cobra seu preço. Elena ficou genuinamente feliz em vê-la. Clara, que alegria! Muito obrigada por tudo que você fez por nós. Se não fosse por você... Ah, qual é, disse a senhora com desdém. Vim buscar uma coisa, veja só o que eu trouxe. Ela tirou um jornal da bolsa, mas não era o jornal local; era uma publicação nacional, Jovens Talentos da Espanha.

Numa das páginas centrais havia um artigo sobre jovens artistas do país, e entre eles, uma foto de Lucía e seu desenho do céu estrelado. Quem diria? Clara maravilhou-se. Nossa Lucía, famosa em todo o país. Vi o jornal na sala de espera do médico e quase desmaiei de alegria. Comprei para você ver. Elena não podia acreditar no que via. O artigo era sobre um programa de apoio a jovens talentos em concursos regionais, e entre os vencedores estava Lucía, uma das participantes mais destacadas, cujas obras se distinguiam pela profundidade e domínio técnico além de sua idade.

“Mas como eles descobriram? Quem enviou os trabalhos?”, perguntou Elena, curiosa. “Bem, está escrito aqui que o material foi fornecido pela Escola de Belas Artes da cidade. Deve ter sido o diretor”, sugeriu Clara. Naquela tarde, ao buscar Lucía na aula, Elena perguntou a David Romero sobre a publicação. “Você já viu?”, perguntou o diretor, sorrindo. “Sim, enviei os trabalhos dos nossos melhores alunos para a equipe editorial da revista. Eles estavam preparando uma edição especial sobre a criatividade infantil.” Mas não é só isso.

Lucía foi convidada para o concurso nacional de jovens artistas, que será realizado em Madri no próximo mês. Todas as despesas são cobertas pelo Ministério da Cultura. Faz parte do programa de apoio a crianças talentosas das províncias. Elena ficou boquiaberta. Madri, um concurso nacional. Era uma oportunidade que elas nem sequer ousavam sonhar. Mas nunca estivemos em Madri e, além disso, não posso tirar vários dias de folga do trabalho.

Ela gaguejou, perplexa. O programa inclui um dos pais acompanhando-a. Eles pagarão a viagem, a hospedagem e até as refeições. E quanto ao trabalho, tenho certeza de que Dom Julián entenderá. A viagem dura apenas três dias. Quando Lucía soube da notícia, pulou de alegria. "Mamãe, vamos para Madri! Vou ver a Puerta del Sol, o Palácio Real e o Museu do Prado!" Elas voltaram para casa muito animadas, fazendo planos para a viagem.

Elena refletia sobre a rapidez com que tudo estava mudando. Até pouco tempo atrás, seu mundo se limitava a um pequeno quarto e ao refeitório da fábrica, e agora novos horizontes se abriam diante deles. Na redação, Dom Julián recebeu a notícia com entusiasmo. "Claro, vá. É uma oportunidade maravilhosa para a menina. Daremos um jeito com o trabalho. Dividiremos ou adiaremos. Não tem problema." A preparação para o concurso foi intensa. Lucía decidiu apresentar uma nova obra, uma grande aquarela intitulada "Meu Mundo".

Nela, ela havia pintado seu quarto no dormitório, transformado por sua imaginação em um espaço mágico onde, da janela, não se viam os prédios da fábrica, mas uma cidade de conto de fadas com castelos e arco-íris. Duas semanas antes da viagem, algo inesperado aconteceu. Elena encontrou Isabel, a amiga cuja casa ela planejava visitar na noite em que foi despejada. Isabel trabalhava em uma farmácia perto da fábrica, e Elena às vezes passava por lá. "Elena, que bom te ver!"

Isabel saiu de trás do balcão e a abraçou forte. "Eu estava tão preocupada com vocês duas. Liguei, mas vocês não atenderam. Depois, fiquei sabendo por conhecidos que vocês estavam na residência da fábrica. Eu queria vir vê-las, mas não sabia o endereço." Elas conversaram por quase uma hora. Elena contou tudo o que havia acontecido naqueles meses: o trabalho, os sucessos de Lucía, a viagem a Madri. "E você, Carlos, como está?", perguntou cautelosamente no final. Isabel hesitou. "Você não sabe?"

Ele partiu em janeiro. A mãe dele diz que ele foi trabalhar numa plataforma petrolífera na Noruega. Dizem que lá pagam muito bem. Elena sentiu um estranho alívio; então não era que ele os tivesse esquecido, era que ele tinha ido embora. Ele tinha começado uma nova vida, tal como ela. E a mãe dele, a senhora Pilar, bem, continua a mesma, a queixar-se da vida, da pensão, do filho que foi embora e mal manda dinheiro. E nem uma palavra sobre ti, como se nunca tivesses existido.

Pouco antes de partirem para Madrid, chegou um pacote à residência, sem remetente, apenas com o nome Elena. Dentro havia um maço de notas, 1.000 euros, e um bilhete curto do pai para Lucía, para os seus estudos e pinturas. Elena reconheceu imediatamente a caligrafia de Carlos. O seu primeiro impulso foi devolver o dinheiro. O orgulho impediu-a de aceitar a ajuda do homem que as tinha abandonado. Mas depois pensou em Lucía, no seu futuro, que o dinheiro realmente as ajudaria a desenvolver o seu talento.

"O que é isso, mamãe?" perguntou a menina, olhando para a caixa. "Um presente do papai", respondeu Elena sinceramente. "Então ele não se esqueceu de nós?" Um fio de esperança pairava na voz de Lucía. "Não, querida, ele não se esqueceu." Elena abraçou a filha, sentindo um nó na garganta. Naquela noite, depois de colocar Lucía na cama, ela ficou sentada por um longo tempo perto da janela. Tantas coisas tinham mudado naqueles meses. Elas tinham encontrado um novo lar, novos amigos, um novo caminho.

Não tinha sido fácil, claro. Muitas vezes, ela adormecia exausta. O dinheiro ainda era curto, mas ela também sentia algo novo: dignidade, orgulho da filha, a alegria de criar e gratidão pelas pessoas que as ajudaram. "Talvez seja verdade que toda nuvem tem um lado bom", sussurrou, lembrando-se das palavras de Clara. "Madri as acolheu com um clima ensolarado e a agitação da cidade grande. O hotel onde as participantes ficaram era perto do Parque do Retiro."

No primeiro dia, foram à Plaza Mayor. Lucía estava ansiosa para ver os famosos monumentos sobre os quais lera nos livros. "Mamãe, olha que lindo!", exclamou, maravilhada com a fachada do prédio da padaria. A competição foi realizada no Círculo de Belas Artes. Havia muitos participantes, cerca de 100 crianças de toda a Espanha, da Galícia às Ilhas Canárias. Lucía estava um pouco intimidada, mas logo fez amizade com outros jovens artistas. O júri, composto por figuras do mundo da arte — professores universitários, diretores de museus e artistas renomados — passeava entre os painéis, examinando as obras, fazendo anotações e cochichando entre si.

Elena estava mais nervosa do que a própria Lucía. A competição era acirrada. O segundo dia do concurso foi o mais tenso. Os participantes tinham que criar uma obra de arte baseada em um tema dado, um sonho. Eles tinham três horas para dar vida às suas ideias. Lucía escolheu aquarela, sua técnica favorita. Elena não podia estar na sala, então vagava pelos corredores, checando nervosamente o relógio. No saguão, encontrou uma mulher da sua idade, magra, de cabelos curtos e olhar atento.

“Você também está esperando seu filho?”, perguntou a desconhecida, percebendo seu desconforto. “Sim, pela minha filha. Viemos de uma cidade pequena. É a primeira vez dela em um evento como este. Estou preocupada. Eu entendo. Meu filho também vai participar. Somos de Barcelona. Aliás, meu nome é Mónica Elena.” Enquanto tomavam café, Mónica contou que era curadora em uma galeria de arte contemporânea e que seu filho, Miguel, pintava desde os quatro anos. “Na minha família, todos são artistas. Meu marido, eu, meus avós.”

Miguel não teve outra escolha, sorriu. Elena sentiu uma pontada de inveja. As circunstâncias delas eram muito diferentes. Apesar de tudo, Lucía tinha conseguido se destacar. E sua filha pintava há muito tempo — não tanto tempo assim, apenas um dia a vida dela mudou e isso de alguma forma despertou seu talento, respondeu Elena evasivamente. Mónica assentiu compreensivamente. Às vezes, as dificuldades nos ajudam a nos encontrar, especialmente na arte. Quando as crianças terminaram, os pais puderam entrar. Elena se aproximou da filha e ficou sem palavras ao ver seu desenho.

A aquarela retratava uma casa grande e iluminada à beira-mar. Na varanda, havia dois cavaletes, um com uma menina e o outro com uma mulher. Um pouco mais adiante, encostado no parapeito, um homem as observava com carinho. "Lucía, está lindo", sussurrou Elena, com os olhos marejados. "É o nosso sonho, mãe. Nossa casa à beira-mar, onde vamos morar e pintar, e o papai vai voltar com a gente." "Eu sei", disse a menina, confiante. Elena não sabia o que dizer. O resultado seria anunciado no dia seguinte.

Entretanto, organizaram uma visita ao Museu do Prado. Lucía passeava pelas galerias. Fascinada, parou por um longo tempo diante das pinturas de Zoroya, o pintor de quem Beatriz lhe falara. "Mãe, olha a luz! Parece tão real. Quero aprender a pintar assim também." "Você vai aprender, minha querida. Para isso, você precisa se esforçar e acreditar em si mesma." Naquela noite, no hotel, disseram-lhe que tinha um telefonema do jornal. Ela ligou para Dom Julián. "Elena, estou ligando com notícias incríveis."

A voz do editor soava entusiasmada. O diretor de uma editora na capital tinha visto seu trabalho para o jornal. Ele adorou seu estilo. Estavam preparando um livro infantil e procuravam um ilustrador. Queriam oferecer o trabalho a ela. Elena não conseguia acreditar. Ilustradora de livros. Era um nível completamente diferente, um salário diferente. Mas eu nunca ilustrei um livro. Não tenho experiência. Você tem talento, que é o mais importante. O resto se aprende. O que você acha? Aceita? Claro, é uma oportunidade incrível.

Ao desligar o telefone, ela não conseguiu conter a alegria. "O que foi, mãe?", perguntou Lucía. "Me ofereceram um emprego, meu amor. Um emprego criativo de verdade. Ilustrar um livro infantil. Que legal!" "Então você também vai ser uma artista como eu!", exclamou a menina. "Podemos desenhar juntas." No dia do encerramento, todos se reuniram no salão do círculo de arte. Anunciaram os prêmios especiais, depois os vencedores por categoria e, agora, a apresentadora anunciou os indicados para a categoria aquarela, na faixa etária de 6 a 7 anos.

O terceiro prêmio foi para Miguel Costa, de Barcelona, ​​que havia ganhado o segundo. Elena viu sua nova amiga, Mónica, ficar tensa. E, finalmente, o primeiro prêmio foi para Lucía Soler, por sua obra "Um Sonho". Lucía subiu ao palco. O salão irrompeu em aplausos. O presidente do júri, um professor de cabelos grisalhos da Real Academia de Belas Artes, entregou-lhe um diploma, uma medalha e uma grande caixa de materiais de desenho. "Lucía, diga algumas palavras", pediu o apresentador.

A menina, após um momento de hesitação, falou com confiança: “Desenhei o nosso sonho, uma casa à beira-mar onde eu e minha mãe vamos morar e pintar. Minha mãe também é artista, ela só tinha esquecido, mas lembrou agora. E também desenhei o papai porque acho que ele vai voltar para nós quando perceber o quanto o amamos.” Um silêncio comovente pairou sobre a sala. Após a cerimônia, representantes do júri, do ministério e diretores de escolas de arte se aproximaram delas.

"Lucía, gostaríamos de lhe oferecer uma bolsa de estudos para crianças talentosas", disse um representante do ministério. "E uma exposição do seu trabalho no Museu de Arte Infantil", acrescentou o diretor do museu. Elena ouviu as propostas como se estivesse sonhando. Aquilo estava realmente acontecendo. Voltaram para o hotel tarde, cansadas, mas felizes. "Mamãe, finalmente seremos verdadeiramente felizes?", perguntou Lucía, já na cama. "Já somos, meu amor", respondeu Elena. "Porque temos uma à outra, nossa arte e as pessoas que nos apoiam."

E nós também temos um sonho, e ele se realizará. Vai se realizar, Elena repetia, como um eco. O retorno para casa foi triunfal. Beatriz, Marta, Clara e outras residentes do asilo as esperavam na estação. A notícia da vitória se espalhou pela cidade. No dia seguinte, o jornal da fábrica publicou uma matéria com a foto de Lucía, e no dia seguinte a esse, a emissora de televisão local ligou. A vida se tornou um turbilhão de acontecimentos. Elena começou a trabalhar nas ilustrações do livro.

Lucía estava se preparando para sua exposição e para o início das aulas. Três meses depois, recebeu uma proposta irrecusável da editora. "Elena, suas ilustrações foram um sucesso. Estamos lhe oferecendo um contrato permanente, cinco livros por ano com um adiantamento generoso, além de uma porcentagem sobre as vendas." "Será que daria para comprar uma casa com isso?", perguntou Elena, surpresa consigo mesma. "É bem possível." Com o primeiro salário da editora, elas alugaram um pequeno apartamento de um quarto — só delas.

Era o começo de uma nova vida, independente do passado. Dizer adeus ao lar de idosos foi emocionante. "Nunca me esquecerei de como todos vocês nos ajudaram", disse Elena, profundamente comovida. "Ah, é mesmo?", respondeu Clara. "O mérito é todo seu; você não desistiu e lutou pela sua filha." No novo apartamento, a primeira coisa que Elena fez foi montar um cantinho para desenhar. A vida estava gradualmente voltando ao normal. O dinheiro chegava regularmente, seu trabalho era gratificante e Lucía estava se destacando na escola. Não havia notícias de Carlos; apenas transferências de dinheiro ocasionais, sem cartas ou remetente.

Passou-se um ano, um ano incrível que mudou completamente as suas vidas. O primeiro livro ilustrado de Elena tornou-se um best-seller. Ela já estava a trabalhar no seu próprio livro, escrito e ilustrado por ela. Num dia quente de setembro, enquanto Elena trabalhava, a campainha tocou. Ela pensou que fosse um entregador, mas era Carlos à porta. Ela congelou, incrédula. Ele tinha envelhecido um pouco. Estava mais bronzeado, com novas rugas, mas era ele. "Olá, Elena", disse ele, com a voz hesitante.

“Olá, posso entrar? Preciso conversar.” Carlos entrou cautelosamente no apartamento. Apartamento agradável. Sim, estamos bem aqui. Um chá. Enquanto preparava o chá, tentou organizar seus pensamentos. “Como você nos encontrou?” “Por acaso, vi um artigo em uma revista sobre uma garota talentosa e sua mãe ilustradora. Vi a foto e não acreditei. Comecei a pesquisar, descobri as exposições, os livros, vim para a cidade e perguntei na editora.” Elena ouviu atentamente, observando seu rosto.

Ele parecia mais sério. Havia perdido a antiga arrogância. "Por que você veio, Carlos?" Ele demorou um pouco para responder. "Para me desculpar por tudo, por ter expulsado todos vocês. Por ter sido um covarde e deixado minha mãe me influenciar, por não ter lutado pela minha família. Não estou pedindo seu perdão. Sei que não o mereço. Só queria que vocês soubessem que percebi meu erro. E sinto muito. Por que eu estava na Noruega trabalhando agora, depois de um ano? Um mês lá, um mês em casa."

Mas eu não tinha mais um lar, apenas um apartamento vazio e uma mãe que nunca parava de reclamar. Eu não conseguia parar de pensar em você. Enviei dinheiro para sua conta na esperança de que chegasse até você. Chegou. Obrigada. Nos ajudou muito. Que bom. E então eu vi o artigo e percebi que você não só tinha superado a situação, como tinha triunfado sem mim. Talvez até porque eu fui embora. E sua mãe morreu há seis meses. Um ataque cardíaco. E sabe o que é mais estranho? Antes de morrer, ela me pediu perdão.

Ele disse que cometeu um erro, que destruiu nossa família por causa de seu ciúme e egoísmo, que precisava encontrar você e consertar tudo. Sinto muito. Obrigada. Como está a Lucia? Essa pergunta fez Elena sorrir. Ela está ótima. Está crescendo, estudando, desenhando. Ela tem um talento incrível. Carlos pergunta por mim. Ele geralmente não guarda rancor. As crianças são melhores do que nós éramos. Elas continuaram conversando por um longo tempo. A tensão foi se dissipando aos poucos. Lucia vai chegar da escola logo, disse ela, olhando para o relógio. Você quer vê-la? Mais do que qualquer coisa no mundo.

Quando a porta se abriu e a voz de Lucia foi ouvida, "Mãe, cheguei!", Carlos empalideceu. Elena saiu para receber a filha. "Temos uma visita, querida." Lucia olhou para a cozinha e parou abruptamente. Seus olhos se arregalaram e então brilharam com uma felicidade que deixou Elena sem fôlego. "Papai!", exclamou ela, correndo para os braços dele. Carlos a pegou no colo, a abraçou e afundou o rosto em seus cabelos. Lágrimas escorriam por suas bochechas, que ele não fez questão de esconder.

“Minha filha, como você cresceu. Papai, senti tanta saudade. Eu sabia que você voltaria.” Ela rezava para as estrelas todas as noites. Elena saiu da cozinha para dar-lhes um pouco de espaço. Precisava pensar. Foi até seu ateliê e parou em frente ao cavalete. Passos soaram atrás dela. Era Carlos, segurando sua mão com um sorriso radiante. “Mãe, o papai quer ficar com a gente. Ele disse que nos ama muito e que nunca mais vai embora. Será que pode?” Elena olhou para Carlos.

Em seus olhos havia súplica, arrependimento e esperança. "Não é tão simples assim, meu amor", disse Elena gentilmente. "Às vezes, os adultos precisam de tempo para se perdoarem e recomeçarem, mas você o perdoará, não é?" "Por favor", os olhos de Lucia se encheram de lágrimas. "Você se lembra do meu desenho? A casa à beira-mar, onde estamos todos juntos e felizes. Não estou pedindo que me deixem entrar na vida de vocês de uma vez", disse Carlos suavemente. "Posso ir ver Lucia, ajudar no que for preciso, e veremos?"

Era uma proposta razoável. "Está bem", concordou Elena. "Você pode vir. Lucía vai adorar." "E você?" Em seus olhos havia uma pergunta que ela não ousava fazer. "Não sei, Carlos. Não posso prometer nada agora." Lucía os observava, sentindo a tensão, mas também um tênue fio que um dia os uniu e que talvez estivesse começando a se romper. "Sabe de uma coisa?" disse ela de repente, com um tom sério. "Vou desenhar um novo quadro, um em que estejamos todos juntos, mas aqui na nossa cidade."

E então, quando tudo estiver resolvido, vou desenhar como nos mudamos para a praia. Elena e Carlos sorriram. A fé da menina era contagiante. "Que ótima ideia, querida", disse Elena, abraçando-a. "Comecemos com o que temos agora e deixemos os sonhos para o futuro. Mas eles se realizarão, não é? Quem sabe?" Elena olhou para Carlos. "Há um ano, eu jamais imaginaria que estaria ilustrando livros e que você seria um jovem artista famoso. A vida é cheia de surpresas." Carlos retribuiu o sorriso de gratidão.

Naquela noite, enquanto Lucía dormia e Carlos tinha ido para um hotel próximo, Elena sentou-se à janela contemplando as estrelas. Refletiu sobre como a vida é incrível, como a luz pode surgir da mais profunda escuridão. Um ano antes, ela estivera à porta de um lar de idosos com uma caixa, sem saber o que fazer. Hoje, tinha um emprego que amava, um lar acolhedor, uma filha bem-sucedida e, talvez, a chance de um novo começo.

"Não há mal que não traga algum bem", sussurrou ela. Na manhã seguinte, Elena acordou com uma ligação. Era sua editora. "Elena, notícias incríveis! Seu livro ganhou um prêmio em um concurso internacional de literatura infantil. Você está convidada para a cerimônia de premiação na Itália." O sonolência desapareceu instantaneamente. Itália, sim, ela poderia ir! E poderia levar sua filha. Havia um programa especial para crianças. A viagem, a hospedagem, tudo pago. Quando desligou o telefone, estava tomada pela emoção.

Itália, o berço da arte. Ela e Lucia visitariam Roma, Florença, Veneza. De repente, lembrou-se do desenho da filha, a casa à beira-mar. O mar italiano não era pior do que Lucia imaginara. Talvez fosse um sinal, o primeiro passo para realizar seu sonho. Elena sorriu e foi acordar a filha. A vida seguiu seu curso, e foi maravilhosa com todas as suas reviravoltas inesperadas, suas provações e seus milagres. O importante era não desistir e acreditar em si mesma. Como Lucia disse certa vez: "E tudo dará certo porque estamos juntas."