Mas quem você pensa que é? Faça as malas e suma daqui! — gritou o marido, enquanto a sogra sorria maliciosamente pelas costas dela. Na manhã seguinte, ao ligarem a televisão, não acreditaram no que viram.
“Mas quem você pensa que é? Pegue suas coisas e suma daqui!” gritou Carlos, pairando sobre Elena como uma nuvem de tempestade. Seus olhos, que até ontem a fitavam com ternura, agora faiscavam como relâmpagos. A figura robusta do marido, que antes inspirava segurança, agora parecia ameaçadora. Atrás de suas costas largas, pairava a Sra. Pilar, sua sogra, com os lábios finos cerrados num sorriso malicioso. Aquele sorriso dizia tudo. “Eu já avisei meu filho que você não era a mulher certa para ele.”
Lucia, de seis anos, agarrava-se à perna da mãe, soluçando silenciosamente, sem entender por que o pai gritava daquela maneira. Seu coelhinho de pelúcia favorito, gasto pelo tempo e pelo carinho da infância, pendia de sua mãozinha, quase tocando o chão. O rosto da menina, salpicado de sardas acima do narizinho arrebitado, contorceu-se de medo, e seus grandes olhos castanhos se encheram de lágrimas. O pequeno apartamento de dois quartos em um prédio dos anos 70 parecia opressivo, e a presença da sogra, que havia se mudado temporariamente três meses antes após uma cirurgia no quadril, era vista como uma fonte constante de pressão.
As coisas dela, lenta mas seguramente, foram invadindo o apartamento. O velho aparador com os cristais lapidados na sala de estar, os sousplats de crochê nos braços do sofá, a coleção de estatuetas de porcelana na prateleira, as fotografias emolduradas de parentes na parede. Elena frequentemente sentia o olhar de reprovação da Sra. Pilar sobre si: o gaspacho tinha sal demais, a roupa não estava estendida direito, ela estava mimando a criança. A sogra suspirava, franzia os lábios e começava longos discursos sobre como administrar uma casa, criar filhos e respeitar o marido.
Em nossa época, minha querida, não éramos tão liberais. O homem é o chefe da família, mas é a mulher quem a conduz. Basta saber como conduzi-la, e não de qualquer jeito. Mas hoje tudo era diferente. Dona Pilar não suspirava nem começava seus sermões habituais. Estava triunfante. "Carlos, por favor, o que houve?" Elena tentou fazer sua voz soar firme, mas ela tremia. "Somos uma família. Temos uma filha." Na pequena entrada com seu papel de parede floral desbotado, mal havia espaço.
O velho espelho, comprado quando se mudaram, refletia o rosto abatido de Elena. "Trinta e dois anos, mas pareço ter quarenta", pensava ela de manhã, observando as finas rugas ao redor dos olhos e a ruga entre as sobrancelhas. Agora, naquele espelho, via uma mulher assustada, com os cabelos castanhos presos num rabo de cavalo desarrumado e os olhos vermelhos de tanto chorar. A tarde começara como qualquer outra. Ela voltara do trabalho na creche, buscara Lucía nas atividades extracurriculares e preparara o jantar.
A menina desenhava na mesa da cozinha enquanto Elena descascava batatas quando a campainha tocou. Era Carlos, que só voltaria no dia seguinte. Ele trabalhava em uma obra no exterior, em turnos de duas semanas fora e uma semana em casa. A alegria com o retorno inesperado do marido logo se transformou em ansiedade. O rosto de Carlos estava impassível. Ele mal deu um beijo na filha e se trancou no quarto com a mãe.
Meia hora depois, a Sra. Pilar entrou na cozinha e disse: “Precisamos conversar”. “De que família você está falando?”, respondeu Carlos com desdém. Suas mãos, ásperas e rachadas de tanto trabalhar ao ar livre, estavam cerradas em punhos. “Estamos casados há cinco anos. E para quê? Sem apartamento próprio, sem salário decente. Você só sabe reclamar o dia todo de cansaço e dor de cabeça. Mamãe tem razão. Você nem sequer é uma boa dona de casa, nem uma mulher que sabe cuidar de uma casa.”
Elena olhou para o marido, perplexa. O que significa que eu não sou uma mulher? O que aconteceu nessas duas semanas? Ou será que aconteceu antes e só agora explodiu? Pensamentos inundavam sua mente. Seu coração batia tão forte que parecia que ia saltar do peito. "O que você está dizendo? Eu fiz alguma coisa para você?" Elena tentava entender por que estava sendo punida daquela forma. "Carlos, estamos juntos há oito anos. Estamos criando Lucía. Eu te amo." Lá fora, uma chuva fria de novembro caía.
Os prédios cinzentos do bairro operário nos arredores de Madri mergulhavam no crepúsculo. Ao longe, ouvia-se o trânsito, e no apartamento ao lado, a televisão estava ligada. Passavam o programa "Roda da Fortuna". Elena achava que tudo tinha corrido normalmente naquela manhã. Ela ajudara Lucía a se vestir para a creche, preparara uma tigela de cereal para ela, que a menina recusou, trançara seus cabelos e colocara um curativo em seu joelho ralado.
Então ela foi trabalhar. A rotina de sempre. A agitação matinal na creche, os gritos das crianças, os pais descontentes, a soneca interrompida, um suco derramado e a meia-calça rasgada de outra menina no grupo do meio. Seu salário de € 950 mal dava para as compras do supermercado e as contas. A Sra. Pilar apareceu atrás do filho, alisando os cabelos grisalhos impecavelmente penteados. Nas mãos, segurava uma caixa de papelão gasta de uma antiga televisão Philips que, por algum motivo, guardavam na prateleira mais alta do guarda-roupa.
Ela bateu a tampa no chão bem na frente de Elena. "Vamos, arrume suas coisas. Isso basta por enquanto. Você pode pegar o resto outro dia." A voz da sogra soava prática, como se estivesse lidando com uma inquilina problemática. Estavam despejando a mãe de sua única neta. Elena de repente se lembrou de como conheceu Carlos. Foi na festa de aniversário da amiga Isabel. Uma mesa comunitária, uma travessa de salada russa, uma garrafa de cava e um aparelho de som tocando um sucesso dos anos 90.
Carlos sentou-se ao lado dela, perguntou quem ela era e de onde vinha, e a acompanhou até em casa, mesmo morando do outro lado da cidade. Na manhã seguinte, chegou atrasado ao trabalho, mas disse que não se importava. Um mês depois, pediu-a em casamento. O casamento foi modesto. No refeitório da fábrica onde a mãe de Carlos trabalhava. Cinquenta convidados. O diretor fez um discurso. Tocaram-se músicas com um acordeão. Vida longa aos recém-casados! Então, Lucía nasceu. Começaram as noites sem dormir, as cólicas, os primeiros dentes.
Carlos estava cansado do trabalho, sobrecarregado de dinheiro. Às vezes, perdia a paciência, mas se acalmava rapidamente e pedia desculpas. E então sua mãe quebrou o quadril e veio morar com eles. “Mamãe, para onde vamos?”, perguntou Lucía baixinho, erguendo os olhos assustados para Elena. A menina ainda não entendia o que estava acontecendo, mas pressentia que era algo terrível. Naquele instante, Elena sentiu algo se quebrar dentro de si. Sua angústia pela filha superou a própria humilhação; endireitou as costas e, com uma calma e dignidade que desconhecia, disse: “Está tudo bem, Carlos”.
Se foi essa a sua decisão, que assim seja, mas lembre-se deste momento. Ele viu algo vacilar no olhar dela. Talvez uma dúvida, mas a Sra. Pilar imediatamente colocou a mão no ombro dele, como se o estivesse empurrando. E Carlos voltou a ficar rígido e distante. "Não suporto ver você maltratar meu filho." De repente, a sogra sibilou. "Ele faz tudo por você e por ela", disse, acenando com a cabeça na direção de Lucía. "Ele trabalha dia e noite em três lugares diferentes."
E você? Comprando guloseimas para si mesma e tomando café com as amigas. Elena congelou, sem conseguir acreditar no que estava ouvindo — de que guloseimas e café ela estava falando? Suas únicas joias eram um par de brincos de prata que sua mãe lhe dera de aniversário e sua aliança de casamento. E a última vez que ela estivera em um café fora um mês atrás, na festa de aniversário de uma colega de trabalho, e ela saíra antes de todos os outros porque precisava buscar Lucía na casa de uma vizinha.
Dona Pilar, do que a senhora está falando? Que alvoroço! Elena olhou para o marido em busca de apoio, mas Carlos apenas murmurou algo sombrio. Não se faça de desentendida, a senhora sabe muito bem disso. Dona Pilar bufou. Ah, que assustador. Como se não tivéssemos visto outras pessoas como você. Acha que não podemos viver sem você? Meu Carlos é um partidão. Tem a Silvia, do terceiro andar, sempre perguntando por ele. E ela tem o próprio apartamento e o próprio carro, ao contrário das outras que vivem às custas dos outros.
Elena não respondeu. Sentia um cansaço tão profundo que parecia ter envelhecido dez anos num instante. Uma dor surda instalou-se em seu peito e suas têmporas latejavam. Discutir mais era inútil. Foi até o guarda-roupa e começou a tirar roupas. Os vestidinhos e macacões de Lucia, meias grossas e luvas, suéteres e um gorro. A menina a observava com olhos assustados, sem entender por que sua mãe estava colocando seu vestido favorito naquela caixa horrível. Elena rapidamente reuniu o essencial.
Os documentos, roupas quentes para Lucía, algumas de suas próprias roupas, remédios e o álbum de fotos em que vinha trabalhando desde o nascimento da filha — ela colocou tudo cuidadosamente por cima. A boneca de Lucía e alguns livros mal cabiam. "Lucía, querida, pegue todos os bichinhos de pelúcia que quiser", disse Elena o mais calmamente possível, embora por dentro estivesse fervendo de raiva só de pensar em dizer aquilo para a filha. Lucía olhou ao redor do seu canto do quarto, perplexa.
Uma coleção inteira de bichos de pelúcia a encarava com olhos de vidro. Ursos, coelhos, elefantes, cachorrinhos dados em aniversários, no Natal, por bom comportamento ou simplesmente porque sim. "Todos eles?", perguntou a menina baixinho. "Não, meu amor, só os seus favoritos. Buscaremos o resto depois." Essas palavras exigiram um esforço sobre-humano de Elena. Ela sabia que esse "depois" talvez nunca chegasse. Carlos andava de um lado para o outro, nervoso, olhando para o relógio, como se tivesse um compromisso importante e estivessem adiando.
A Sra. Pilar estava de braços cruzados, observando a cena com evidente satisfação. "Mamãe, e os meus desenhos? E onde vamos morar?" Lucía olhou fixamente para a mãe, com os olhos arregalados. Elena foi até a estante e pegou o caderno de desenhos onde Lucía guardava suas obras. Flores, um sol, uma casinha com uma chaminé da qual saía fumaça e um desenho da mamãe, do papai e de Lucía de mãos dadas.
Vai ficar tudo bem, querido. Elena acariciou a cabeça dele, tentando transmitir em suas palavras uma certeza que não sentia. Você se lembra da tia Isabel? Vamos para a casa dela. Ela está nos esperando. Era mentira. Elena não havia contado à amiga, mas naquele momento, às 22h, com uma criança e uma caixa, não tinha outra escolha. Carlos continuava de braços cruzados, olhando para o lado, como se a despedida da filha não tivesse nada a ver com ele.
Sua figura robusta, vestida com um suéter gasto e calças jeans velhas, parecia distante e impenetrável. Elena percebeu que não conhecia de verdade aquele homem com quem vivera por oito anos. No fundo, ela nutria uma pequena esperança de que ele reconsiderasse, que parasse, que dissesse que tudo aquilo era bobagem, um mal-entendido. Mas Carlos permaneceu em silêncio. A Sra. Pilar abriu a porta da frente, deixando claro que a conversa havia terminado.
Uma corrente de ar frio e o cheiro de mofo vinham do patamar. “Papai, você vem nos ver?” Lucía se aproximou do pai, mas ele deu um passo para trás como se tivesse medo de pegar alguma doença. “Vá com a sua mãe, Lucía. A gente vê”, disse ele, virando-se. Em sua voz, Elena achou que detectou algo parecido com arrependimento, mas talvez ela só quisesse acreditar nisso. Dona Pilar empurrou a neta em direção à porta. “Vamos, vamos, não faça os adultos esperarem. Sua mãe já disse que você vai para a casa da tia Isabel.” O patamar as recebeu com o cheiro de repolho cozido e a luz fraca de uma lâmpada quase apagada.
A porta bateu atrás dela, como se pusesse fim à sua antiga vida. Elena ficou parada no patamar, a caixa nas mãos, a filha agarrada a ela, sentindo como se o chão estivesse se abrindo sob seus pés. No bolso, havia 200 euros; ela havia economizado todo o dinheiro para comprar botas de inverno para Lucía, mas agora era tudo o que tinham para viver. Lá fora, chovia, transformando-se em chuva congelada.
O ponto de ônibus ficava a 20 minutos de caminhada. As paredes da entrada do prédio, cobertas de grafites e símbolos estranhos, eram opressivas. O cheiro de gato e mofo lhe dava náuseas. Garrafas de cerveja vazias e bitucas de cigarro estavam espalhadas no pé da escada. Elena pensou que até pouco tempo atrás reclamava dos adolescentes que ficavam por ali, mas agora não se importava. O importante era: o que fazer agora? Para onde ir? Lucía sentou-se sozinha em silêncio, apertando seu coelho de pelúcia.
Mãe, e se o papai mudar de ideia? E se a vovó deixar a gente ficar? Elena respirou fundo, tentando engolir o nó na garganta. Ela não podia desabar. Precisava ser forte pela filha. Vamos, querida. Elena pegou a mão da filha. Temos uma longa viagem pela frente. E sabe de uma coisa? Vai ficar tudo bem, eu prometo. Ela não acreditava nas próprias palavras, mas precisava dizê-las. Por Lucía, por si mesma, pela vida que teriam que reconstruir.
Lentamente, agarrando a caixa com seus pertences e segurando firmemente a mão da filha, Elena começou a descer a escada precária rumo ao desconhecido. Ao sair do prédio, Elena hesitou por um instante, sem saber para onde ir. A chuva intensificou-se, transformando-se em uma chuva de granizo cortante. O vento de novembro bagunçava impiedosamente seus cabelos e penetrava por baixo de sua jaqueta fina. Ela havia esquecido o chapéu, mas voltar era impossível. Seria como admitir a derrota. A caixa pesada pesava em seus braços, e Lucía, com a mão livre no bolso do casaco, tentava não chorar.
Mamãe, e se voltarmos para casa? Eu digo para o papai que vou me comportar direitinho e ajudar a vovó. Eu até como a sopa. Prometo. A voz da menina tremia de frio e tristeza. Elena colocou a caixa em um banco perto da porta e se agachou na frente da filha, olhando em seus olhos. O rosto de Lucía estava molhado pela chuva e pelas lágrimas. Seu narizinho arrebitado estava vermelho, e algumas mechas de cabelo castanho escapavam por baixo do gorro de lã.
Minha vida não é culpa sua. Você não fez nada de errado. É só que às vezes os adultos não conseguem conviver, mas você e eu sempre estaremos juntas, eu prometo. E agora temos que ir para a casa da tia Isabel. Você se lembra de quando fomos à festa de aniversário dela no verão passado? Ela tinha um gatinho muito engraçado chamado Kiko. Lucia deu um sorriso fraco, lembrando-se do gatinho ruivo perseguindo alegremente um pedaço de papel. Aquele sorriso deu forças a Elena.
Ela se levantou, pegou a caixa e caminhou decididamente em direção ao ponto de ônibus. Os pátios internos eram mal iluminados. Os postes de luz piscavam, tingindo as poças de um amarelo mortal. De uma janela entreaberta no primeiro andar, chegava até ela a voz de uma cantora famosa. "Viver assim é morrer de amor." Elena sorriu amargamente, pensando em como a música se encaixava perfeitamente em sua situação. O bairro era antigo, construído na década de 1970. Prédios de apartamentos de cinco andares, álamos, parquinhos com balanços tortos e carrosséis enferrujados.
Vinte anos atrás, este lugar fervilhava de vida. Havia uma fábrica onde a maioria dos vizinhos trabalhava, um cinema que exibia lançamentos nos fins de semana e um centro cultural com oficinas para crianças e adultos. Agora, a fábrica havia fechado. O cinema se transformara em uma loja de eletrodomésticos, e o centro cultural abrigava mais um supermercado de uma grande rede. “Mamãe, estou com frio”, reclamou Lucía. Aconchegando-se mais perto da mãe, Elena parou, colocou a caixa no chão e tirou um anoraque mais grosso para a menina.
Ela a ajudou a se trocar ali mesmo na rua, tentando não molhar suas roupas. Na bolsa, encontrou umas luvas velhas que não eram do seu tamanho, mas ela não tinha como escolher. "Aguenta mais um pouquinho, pequena. Logo vamos pegar o ônibus, e vai estar quente lá. Depois vamos para a casa da tia Isabel. Ela vai nos dar chocolate quente e biscoitos." Chocolate quente era a fraqueza de Lucía. Ela gostava tanto que conseguiria comer a barra inteira se ninguém estivesse olhando.
Elena se lembrou de como costumavam colher amoras na casa de campo da sogra e depois fazer geleia. Isso foi há três anos. A Sra. Pilar ainda a tratava normalmente. Naquela época, ela a ensinou a fazer conservas e explicou como ser uma boa dona de casa. Uma filha deveria saber cuidar do marido, dos filhos e da despensa. O terreno era o orgulho e a alegria da sogra. Ela cultivava de tudo ali, de batatas a uvas. Hortas separadas por caminhos de tijolos, uma casinha charmosa com varanda e uma pequena piscina que Carlos havia construído com as próprias mãos.
Toda a família costumava ir para lá nos fins de semana. Carlos cuidava das tarefas dos homens. Elena ajudava a sogra na horta, e Lucía, que era bem pequena na época, perseguia borboletas e comia groselhas direto do pé. À noite, tomavam chá de ervas na varanda, ouviam um rádio antigo e contemplavam as estrelas. A lembrança foi interrompida por uma buzina de carro. Elena deu um pulo e apertou a mão de Lucía com mais força. Estavam quase no ponto de ônibus.
A cobertura de vidro estava coberta de grafites e anúncios. "Compro ouro, a vidente Maria." "Resolvo todos os seus problemas." "Precisa-se de faxineira." "Quarto para alugar para mulher solteira sem vícios." Este último anúncio chamou a atenção de Elena. Ela arrancou o pedaço de papel e o guardou no bolso. Vai que, né? Dentro da cobertura, uma senhora idosa com um casaco gasto e um gorro de lã segurava uma bolsa. Ao ver Elena com a menina e a caixa, ela se afastou para dar espaço para a menina no banco.
Sentem-se, senhoras. Não podem ficar no frio com um bebê. A senhora falou com um forte sotaque sulista. Elena assentiu agradecida e sentou-se, colocando a caixa aos seus pés. Lucía imediatamente se aconchegou à mãe para se aquecer. A senhora as observava com interesse, mas não fez perguntas, o que Elena apreciou muito. "Estão esperando o último ônibus? O que vai para o centro não passa mais a essa hora; só resta o ônibus circular", disse a senhora por fim, tirando um sanduíche embrulhado em jornal.
Elena ficou paralisada. Ela não tinha pensado nos horários. Claro, àquela hora não havia mais linhas diretas para o bairro onde Isabel morava, e o ônibus circular não a levaria até lá. "E como eu chego ao bairro de Alameda?", perguntou Elena, com uma réstia de esperança. A velha senhora balançou a cabeça. "Para chegar a Alameda, você precisa fazer baldeação para o centro, e a estação central já está fechada. Você não sabia? Surgiu um imprevisto." Elena não sabia o que dizer.
A situação estava ficando desesperadora. Estava frio. Ela não tinha dinheiro suficiente para um táxi. Do seu bairro até a Alameda eram pelo menos 30 km. Eles não tinham onde passar a noite. Ela não conhecia ninguém na região. "E para onde você vai?", perguntou Elena, interessada. "Estou trabalhando no turno da noite na padaria industrial. Faço algumas horas de limpeza; minha aposentadoria não é suficiente, e assim ganho um dinheirinho extra. Além disso, eles nos dão um pão fresco muito bom." De repente, Elena teve uma ideia maluca.
"E eles não precisam de gente na fábrica?" A velha a olhou com interesse, como se a estivesse avaliando. "Sempre precisam de gente, mas pagam pouco e o trabalho é pesado. Você está procurando alguma coisa?" "Sim. Minha filha e eu precisamos de um lugar para ficar enquanto esses tempos difíceis passam." A velha assentiu com simpatia, sem fazer mais perguntas. A compaixão era evidente em seus olhos azuis desbotados. "Meu nome é Clara Robles", apresentou-se, estendendo a mão. "Elena, e esta é minha filha?" "Lucía", respondeu Elena, apertando aquela mão seca e calejada.
Bem, Elena, posso recomendar o nosso gerente. Temos uma residência para trabalhadores ao lado da fábrica, com quartos pequenos. Os banheiros são compartilhados, claro, mas você terá um teto sobre a cabeça. E tenho certeza de que Dom Manuel pode encontrar algum trabalho para você. Ele é um bom homem. Talvez ele consiga um emprego para você na cantina ou no setor de embalagens. Elena não conseguia acreditar na sua sorte. Há pouco tempo, ela estava se preparando mentalmente para passar a noite em uma estação de trem, e de repente esse presente dos céus apareceu.
Lucía já estava quase dormindo, encostada no ombro da mãe. Clara, não precisa agradecer tanto. Vamos lá, mulher. Eu também passei por momentos difíceis quando era jovem. Sei como é. Também me separei do meu marido quando minha filha tinha 5 anos. Ele bebia muito, era violento. Achei que era o fim do mundo, mas veja só, eu superei. Agora minha filha mora em Barcelona. Meus netos já são adultos. A vida é como uma zebra, sabe? Uma listra preta, uma listra branca.
Agora é a sua vez de ter azar, mas os bons tempos virão. Nesse instante, o último ônibus chegou, uma sucata velha com assentos quebrados e janelas embaçadas. Clara ajudou Elena com a caixa, e Lucía, agora totalmente acordada, olhou curiosa para sua nova conhecida. "Vovó, eles fazem doces na padaria?", perguntou ela, entrando no ônibus. "Claro que fazem, minha filha. Os melhores croissants e croissants de chocolate. E eu vou poder experimentar?" "Bem, se sua mãe conseguir um emprego conosco, tenho certeza que você poderá." Elena olhou para Clara com gratidão.
Só agora ela começava a assimilar o que havia acontecido. Seu marido a expulsara de casa. Oito anos de relacionamento terminaram em uma única noite. A incerteza total a aguardava, mas ela tinha sua filha ao seu lado, a quem precisava proteger e por quem valia a pena lutar. E parecia que o destino lhes enviara a primeira pessoa boa que já haviam conhecido. O ônibus começou a se mover, levando-as para longe de sua antiga vida. Pela janela, viam ruas familiares, lojas, a escola onde Lucía começaria o ensino fundamental no ano seguinte.
Agora tudo aquilo era passado. “Clara, a residência é longe?” perguntou Elena, ajeitando a caixa no assento ao lado dela. “Uns 20 minutos. Fica no parque industrial. Não é o bairro mais agradável.” Claro, mas você também não vai pagar muito. Cerca de 150 euros por mês se for com o bebê. Elena calculou mentalmente suas economias. Os 200 euros que tinha cobririam o primeiro mês e a alimentação básica. Se conseguisse um emprego, talvez conseguissem se virar até encontrarem algo melhor.
Lucía já estava quase dormindo de novo, encostada na mãe. Tinha sido um dia longo e difícil. Elena acariciou os cabelos enquanto olhava para a escuridão através da janela. Seus pensamentos estavam confusos. Ela tentava entender o que tinha acontecido, por que Carlos mudara tão repentinamente. Teria sido a sogra que o havia colocado contra ela? Ou haveria outro motivo? Talvez outra mulher. Esse pensamento pesava muito em seu coração, mas ela se obrigou a pensar logicamente. Não era hora para sentimentalismos.
Ela precisava se concentrar em conseguir um teto sobre a cabeça e comida para si e para a filha. "Olha, querida, vou te dizer uma coisa bem direta", interrompeu seus pensamentos. "Não se culpe e não fique remoendo o que aconteceu. Pense no que vai acontecer. Minha colega de quarto na residência estudantil, Tamara, que é professora aposentada, sempre diz: 'Não há mal que não traga algum bem'. Talvez seja verdade." O ônibus parou no semáforo e Elena viu seu reflexo na janela: rosto cansado, cabelo despenteado, olheiras profundas; ela não se reconheceu.
Onde estava aquela garota alegre que sonhava em ser pintora, que adorava caminhar na chuva e cantar em acampamentos? Nos últimos anos, ela havia sido uma sombra do que fora, vivendo entre o trabalho, a casa, a sogra e um constante sentimento de culpa por não ser boa o suficiente. "Vai ficar tudo bem", sussurrou, sem acreditar totalmente. O parque industrial as recebeu com luzes tênues e o cheiro de pão fresco. A padaria, um grande prédio de tijolos com chaminés, funcionava 24 horas por dia.