Lá estava ele. Lucas Benítez . De pé, nervoso, com um terno simples que estava um pouco largo demais nos ombros. Suas mãos tremiam levemente, mas seus olhos… seus olhos brilhavam com uma honestidade tão pura que tocaram minha alma. Naquele instante, senti algo mais forte que o medo: coragem . Desafio . E, acima de tudo, amor .
Para todos eles, Lucas era "o sem-teto". Aquele que dormia em bancos. Aquele que carregava uma mochila velha. Aquele que as pessoas evitavam nas calçadas como se fosse invisível ou indesejado.
Para mim, no entanto, ele era calor no inverno, riso nos dias sombrios e o coração mais bondoso que eu já conheci.
Nos conhecemos dois anos antes, numa tarde chuvosa, em frente à Biblioteca Vasconcelos. O vento virou meu guarda-chuva do avesso e meus livros se espalharam pelo asfalto molhado. As pessoas passavam apressadas, sem me olhar, com cuidado para não molhar os sapatos.
Ele foi o único que parou.
Sem pensar duas vezes, ele se abaixou e pegou meus livros encharcados, um por um, com um cuidado quase reverente, como se fossem algo valioso.
"As tempestades não perguntam quem merece se molhar", ela me disse suavemente. "Elas simplesmente vêm. Mas às vezes... alguém decide ficar ao seu lado mesmo assim."
Esse era o Lucas. Poético sem pretender ser. Humilde sem ser mesquinho. Capaz de me fazer sentir humano num mundo que se movia rápido demais.
Ela nunca escondeu a sua realidade de mim. Dormia em abrigos. Às vezes debaixo de pontes. Tudo o que possuía cabia numa mochila velha. Desenhava para acalmar a mente. Escrevia em folhas soltas de papel. Sonhava, mesmo quando parecia não ter o direito de fazê-lo.
Nunca pediu piedade. Nunca exigiu nada.
Minha família, no entanto, não conseguia enxergar além das roupas gastas e da vida que ele não teve.
"Você está jogando seu futuro fora", disse meu irmão.
"Aquele homem vai te arrastar para o fundo do poço junto com ele", minha tia disparou.
"Ele está te usando", alguns amigos cochicharam.
Lucas nunca respondeu com raiva. Ele nunca levantou a voz. Ele apenas sorriu tristemente e disse:
—As pessoas não são cruéis porque têm tudo… elas são cruéis porque têm medo de perder o pouco que acreditam que as define.
E agora estávamos lá. No dia que todos tinham certeza que seria o maior erro da minha vida.
A cerimônia começou. Eu mal conseguia ouvir o padre. O peso dos olhares de todos era maior do que a renda do meu vestido. Senti os dedos de Lucas tremendo em volta dos meus. Vi seu nervosismo. Seu medo. A dor silenciosa de não ser aceita em um lugar que deveria celebrar o amor.
Então aconteceu algo que ninguém esperava.
Antes da votação, Lucas pediu o microfone.
Os murmúrios começaram imediatamente.
—É claro que ele quer atenção.
—Isso vai ser um grande espetáculo.
—O que mais alguém como ele poderia dizer?
Lucas permaneceu em silêncio por alguns segundos, olhando para todos. Não com raiva, mas com uma tristeza serena que, pouco a pouco, silenciou até a língua mais cruel. Quando falou, sua voz — normalmente suave — preencheu toda a igreja.
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