— Temos que nos desfazer de todas as coisas dela. São apenas lembranças. Elas vão nos assombrar enquanto estiverem em casa.
Eu não conseguia entender como ela podia falar daquele jeito. Não eram apenas coisas: era o cheiro dela, o toque dela, as roupas dela, os brinquedos dela. Resisti o máximo que pude, mas depois de um mês finalmente cedi. Decidi arrumar o quarto dela, no qual eu não entrava havia quase trinta dias.
Ao abrir a porta, senti que tudo estava igual. O ar ainda conservava o leve aroma do perfume dela, e havia um caderno aberto sobre a mesa.
Ela segurava cada objeto com cuidado: um vestido, seus elásticos de cabelo, seu livro favorito. Ela chorava, apertando-os contra meu peito, como se isso pudesse me trazer de volta para ela por um instante sequer.
De repente, um pequeno pedaço de papel dobrado caiu de um dos livros. Meu coração disparou.
Abri o envelope e reconheci a letra da minha filha.
O bilhete dizia: "Mãe, se você ler isso, olhe imediatamente debaixo da cama e você entenderá tudo."
Li várias vezes, com as mãos tremendo. Senti um nó no peito. O que poderia significar?
Reunindo minhas forças, ajoelhei-me e olhei debaixo da cama... e o que vi lá me deixou em choque.
Com as mãos trêmulas, puxei uma bolsa velha debaixo da cama. Dentro dela havia algumas coisas: alguns cadernos, uma caixinha com objetos diversos e o celular da minha filha. O mesmo celular que meu marido dissera estar "perdido". Meu coração disparou com um pressentimento sombrio.