Durante uma consulta na clínica, um médico percebe o comportamento estranho de uma adolescente perto do pai. Um ultrassom logo revela algo profundamente perturbador…

Valeria sentiu um arrepio. Aquela não era a reação habitual de um pai que acabara de receber uma notícia dessas.

“Preciso fazer algumas perguntas à sua filha sem supervisão”, continuou ele. “É uma exigência médica e legal. E preciso notificar os serviços sociais. É o protocolo.”

O semblante de Ernesto endureceu.

“Não precisa envolver ninguém. Eu cuido disso.” O tom era perigoso. Controlado, mas ameaçador. Mesmo assim, Valeria não se intimidou.

“É obrigatório”, repetiu ele. “E eu já pedi para alguém vir. Estou pedindo para essa pessoa esperar na recepção.”

O homem cerrou os dentes, mas finalmente saiu. O médico esperou alguns segundos e voltou para Laura.

O adolescente estava encolhido na maca, respirando com dificuldade.

“Laura”, disse Valeria gentilmente, “preciso que você me diga a verdade. Você sabe quem é o pai?”

A garota levou alguns segundos para responder. Finalmente, balançou a cabeça negativamente.

“Não quero confusão… Ele diz que se eu falar, vai estragar tudo. Que vai nos deixar sem nada.”

"Ele?" Você quer dizer seu pai?

O silêncio foi uma confirmação.

Valéria sentiu uma mistura de indignação e profunda tristeza, mas manteve a calma.

“Laura, o que você está passando é muito sério. Você não está sozinha. Eu vou te proteger, está bem?”

O adolescente olhou para ela com olhos desesperados.

“Ele nunca me deixa sozinha em casa. Está sempre me vigiando. E se eu choro, ele diz que a culpa é minha. Que eu tenho que me comportar. Que…” Sua voz embargou. “…que eu deveria ser grata.”

Valéria tomou uma decisão.

“Vou ligar para um assistente social e para a polícia. Eles vão te ajudar. Nenhuma criança deveria passar por isso.”

Laura tremeu.

"E se ele ficar com raiva? Ele... pode ser muito diferente quando não há ninguém por perto."

“Isso vai acabar hoje”, disse o médico.

Sem dúvida.

Quando a polícia chegou, Ernesto tentou sair da clínica, mas foi impedido na recepção. Ela protestou, gritou e exigiu ver a filha, mas os policiais o detiveram de forma profissional. Valeria permaneceu ao lado de Laura o tempo todo, segurando sua mão.

Uma assistente social, Julia Rivera, chegou ao escritório.

“Laura, estarei com você durante todo esse processo”, assegurou ele. “Você não vai voltar para ele.”

A menina desabou em lágrimas, soluçando no ombro de Julia. Fazia muito tempo que ninguém lhe dizia que ela tinha uma escolha. Que a voz dela importava.

Contudo, embora Ernesto tivesse sido preso, a história de Laura estava apenas começando. Havia feridas mais profundas do que as físicas, traumas que não desapareceriam simplesmente com uma prisão. Valeria sabia disso muito bem: a parte mais difícil ainda estava por vir.

E para Laura, toda a verdade ainda não havia sido revelada.

Após a prisão de Ernesto, Laura foi levada para um abrigo temporário enquanto a investigação começava. Julia, a assistente social, permaneceu ao seu lado, explicando cada passo com clareza e paciência. Mesmo assim, a adolescente se sentia perdida, assustada e cheia de culpa.

“Você não fez nada de errado”, Julia repetiu suavemente. “O que aconteceu é de sua inteira responsabilidade.”

Mesmo assim, Laura tinha medo de falar. Cada palavra era uma luta, como se seu pai ainda estivesse ao seu lado, julgando-a. Nos primeiros dias, ela mal comeu, evitou conversas e acordava assustada à noite.
A Dra. Valeria, embora não fosse obrigada, a visitou por iniciativa própria.

“Queria ter certeza de que você estava bem”, disse ele ao entrar na sala comum do albergue.

Laura ergueu os olhos e, pela primeira vez, deu um sorriso fraco.

“Obrigado… por não me ignorar.”

Durante a consulta, Valeria explicou os resultados dos exames: a gravidez estava avançada, mas Laura podia decidir. Ela conversou com Laura sobre as opções, sem pressioná-la, com total neutralidade profissional.

“Qualquer que seja a sua escolha, estaremos com você”, assegurou-lhe ele.

Com o passar dos dias, Laura começou a se abrir. Ela relatou episódios sobre os quais havia mantido silêncio por anos: como seu pai controlava seus movimentos, suas roupas, suas amizades; como ele a manipulava emocionalmente até que ela se sentisse invisível. Mas a coisa mais terrível foi revelada em uma voz quase inaudível: o abuso havia começado muito antes de ela entender seu significado.

Julia procurou ajuda psicológica especializada. A primeira sessão foi difícil. Laura evitava contato visual, torcia as mãos e duvidava de cada palavra.

“Você tem o direito de sentir medo”, disse a psicóloga a ela, “mas também tem o direito de se curar”.

Após seguir os procedimentos legais e médicos necessários, Laura recebeu o atendimento adequado. Foi um período doloroso, mas também libertador. Nas semanas seguintes, ela começou a frequentar aulas especiais no abrigo e gradualmente retomou atividades que antes lhe eram proibidas: ler romances, escolher suas próprias roupas e passear sozinha pelo jardim.

Certo dia, enquanto conversava com Valeria, o médico disse algo que Laura jamais esqueceria:

“Seu passado não define seu futuro. Você decide quem quer ser.”

E, pela primeira vez desde que entrou naquela clínica, Laura acreditou nisso.

Ela sabia que o caminho pela frente seria longo, que as cicatrizes não desapareceriam imediatamente. Mas ela também sabia algo mais importante: ela tinha apoio, tinha opções e, acima de tudo, tinha liberdade.

A história dela não terminou aí. Mas finalmente, depois de anos vivendo à sombra do medo, Laura começou a escrevê-la por si mesma.

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