Demitido. Sem-teto. Com 186 dólares no bolso. Eu estava dormindo no meu carro quando meu avô bilionário, de quem eu não tinha contato, bateu no vidro. Ele perguntou: "Isso é seu?". Essa pergunta foi o começo de como eu derrubei toda a minha família traidora.

Eu estava pagando pelos pregos no meu próprio caixão. Eu financiei a própria vida que era usada dia após dia para provar que eu era o inferior, aquele que não merecia nada, o sensato que sempre entendia tudo.

Senti uma onda de náusea tão forte que precisei me agarrar aos braços da cadeira. O arranhão no meu carro. A ameaça anônima. Não era de S nem de Mitch. Era dele. Ou da equipe dele. Ele não tinha apenas suspendido uma assistente. Ele tinha bloqueado o acesso ao sistema da representante de Caleb Rowan, Belle. Ele a tinha cortado relações. Ele tinha questionado a propriedade dela.

"Fiquei de fora por tempo demais", disse Arthur, com a voz baixa, quase humana. "Respeitei a decisão da sua mãe de criá-lo longe de tudo isso. Pensei que talvez fosse o melhor. Estava enganado. Permiti que uma geração de gastadores e parasitas criasse raízes na minha própria casa."

Ele olhou para mim, não como um avô, mas como um CEO.

“Eu quero um herdeiro, Luna. Mas quero um herdeiro que saiba assumir responsabilidades. Alguém que saiba o preço a se pagar. Alguém que entenda os mecanismos. Alguém que não tenha medo de conferir as contas. Você provou que consegue assumir uma pequena falha. Você provou que consegue se responsabilizar por ela.”

Ele se inclinou para a frente.

“Agora eu lhe ofereço uma opção. Uma opção real.”

"Um emprego?", perguntei.

“Não. É uma missão. Estou nomeando você supervisor de projeto especial. É um cargo temporário. Você terá 30 dias. Tenho outras cinco propriedades, as marcadas em vermelho, que apresentam os mesmos sinais de vazamentos. Grey Line Cold Storage. Brooksban Logistics. Quero que você inspecione todas elas. Você terá a mesma autoridade limitada. Você encontrará o vazamento. Você analisará o mecanismo e o consertará. Você só se reportará a mim.”

"E o que acontece depois de 30 dias?"

“Veremos.”

Ela se levantou. Um sinal. A reunião estava terminando. “Há uma condição: sigilo absoluto. Você continuará sendo apenas uma auditora. Ninguém pode saber que você é minha neta. Ninguém pode saber que você se reporta a mim. Se Caleb, sua mãe, ou o resto da minha família com direito a voto descobrirem o que você está fazendo, eles se unirão e a destruirão. Vão pintá-la como uma usurpadora. Uma interesseira. Vão se voltar contra você novamente.”

Pensei na centena e tantas que me restavam na conta bancária. Pensei no arranhão branco profundo na lateral do meu carro. Pensei em Bel sorrindo em Paris, uma viagem paga com o dinheiro do aluguel.

“Eu aceito”, eu disse.

"Bom."

Você não pode ficar no carro. Ele está comprometido.

Ele deslizou uma velha chave de latão pela mesa. Era pesada.

O armazém Granite Yards tem antigos dormitórios de funcionários no terceiro andar. São espaços espartanos, limpos e seguros. Você deverá transferir seus pertences para lá hoje à noite. O e-mail de Hian Pilot é seu único contato.

Peguei a chave.

Naquela noite, minha vida mudou. Bastou uma viagem. A caixa de papelão da Northstar. A mochila com roupas. O velho laptop.

O quarto era exatamente como ele havia descrito: espartano. Uma cama de solteiro. Uma escrivaninha de metal. Um banheiro compartilhado no final do corredor com a tinta verde descascando. Era o quarto mais bonito que eu já tinha visto. Tranquei a porta — uma fechadura de verdade, daquelas bem resistentes — e dormi pela primeira vez em quatro dias.

Acordei com o som do meu celular vibrando violentamente contra a mesa de metal. Eu o tinha ligado de novo — uma burrice — por hábito. Estava vibrando há horas. Vinte e sete chamadas perdidas da minha mãe. Quando olhei para ele, a tela acendeu novamente.

Linda Cruz.

Me preparei, com um nó no estômago, e respondi.

"Oi, Luna. O que você fez?"

Eu não estava perguntando. Eu estava gritando. O próprio drama sobre o qual eu havia sido avisada estava ali, agora com toda a sua força, estridente.

"O que você está falando?"

"Belle! O cartão dela, o cartão de acesso ao depósito. Use aquele estúdio. Eles a trancaram para fora. Ela tinha uma reunião com um cliente. Você a envergonhou."

Use aquele estúdio. Claro. O acesso VIP gratuito não era apenas para estacionamento. Era para um lugar. Mais uma parte gratuita e subsidiada da vida dele. Mais um recurso roubado dos livros de Hian, facilitado por Caleb Rowan.

"Houve uma auditoria financeira", eu disse com uma voz fria e ensaiada. "Eu era auditor. Todos os privilégios de acesso não essenciais foram revogados."

"Não é essencial, Luna. É o ganha-pão dela. Você trabalha num escritório pequeno. Você não entende. Ela é uma artista. Você não tinha direitos."

"Eu tinha a autoridade." "Não me importa que tipo de autoridade você acha que tem", ela sussurrou. "Isso é família. Você está sendo mesquinha e invejosa. Não sei que jogo você está jogando, mas você vai resolver isso. Você vai ligar para quem for preciso e restaurar os direitos familiares de Belle imediatamente."

A frase me atingiu como um choque físico.

Direitos da família.

O direito de tomar. O direito de consumir. O direito ao meu salário, ao meu apartamento, à minha estabilidade. O direito a tudo. Enquanto eu não tinha direito a nada.

A Lua ancestral, a sábia, teria cedido. Teria pedido desculpas. Essa raiva a teria aterrorizado. Teria prometido consertar as coisas.

Mas a velha Luna estava adormecida dentro de um carro com a chave riscada na lateral.

“Não”, eu disse.

O silêncio do outro lado da linha era total. Um vazio.

"O que você disse?", ela sussurrou.

“Eu disse não. Os direitos de uso precisam ser pagos.” Se Belle quiser usar o estúdio, ela pode enviar uma solicitação de aluguel e pagar a taxa como qualquer outra pessoa.

Encerrei a chamada.