Demitido. Sem-teto. Com 186 dólares no bolso. Eu estava dormindo no meu carro quando meu avô bilionário, de quem eu não tinha contato, bateu no vidro. Ele perguntou: "Isso é seu?". Essa pergunta foi o começo de como eu derrubei toda a minha família traidora.

O estacionamento Granite Yards era mais um cemitério de asfalto do que um estacionamento. Entrei com meu sedã; a parte de baixo raspou em um buraco do tamanho de uma tampa de bueiro. O braço do portão havia sumido; não estava levantado, mas quebrado; o toco de metal exalava ferrugem. Estacionei no canto mais afastado, fora da vista da pequena cabine de atendimento embaçada, onde um homem lia o jornal. A placa principal de preços estava um caos. As letras de vinil estavam descascando e os preços para caminhões e carros estavam escondidos sob uma camada de sujeira e tinta spray. Era impossível saber qual era o preço real.

Não foi um vazamento. Foi uma hemorragia.

Examinei a infraestrutura. O leitor de placas que Arthur mencionou estava montado em um poste. Sua lente estava rachada. A luz indicadora estava apagada. Estava desconectado. Morto. Todo o sistema parecia funcionar por capricho, ou, mais provavelmente, por capricho do cara na cabine.

Eu estava sentada no meu carro, com meu velho laptop conectado ao adaptador do acendedor de cigarros, que, felizmente, ainda funcionava. Abri a planilha. Então, iniciei o cronômetro no meu celular para três horas. Fiquei ali sentada, contando. Registrei manualmente cada veículo que entrava e saía. Categorizei-os na minha própria planilha. Vans de entrega: entrega rápida. Carro de funcionário do armazém: permanência prolongada. Caminhões de empreiteiras: chegada ao meio-dia. Dinheiro visível no painel. O estacionamento estava cheio. Os armazéns estavam movimentados. Registrei o pico de fluxo, das 6h às 8h, e o horário de pico do almoço, ao meio-dia.

Às 12h30, o atendente do turno diurno saiu da cabine, provavelmente para almoçar. Essa era a minha chance. Saí e me aproximei, com o coração disparado. Tentei usar o cartão que Arthur havia me dado. Ele não abriu a porta principal da cabine. Eu não tinha essa autorização, mas abriu um painel de manutenção cinza e trancado ao lado do terminal de pagamento automático offline próximo. Lá dentro havia um emaranhado de cabos, um modem e um roteador. O roteador estava desligado. Eu o liguei. Uma série de luzes piscou em vermelho e depois em verde.

Corri de volta para o meu carro e olhei para o laptop. Uma nova conexão de rede foi aberta. Conectei-me.

O sistema estava ativo.

Os dados — semanas de trabalho — começaram a preencher o disco rígido do laptop. O pedágio automático estava funcionando, ou pelo menos o terminal de cartão de crédito estava. Ele registrava todos os pagamentos feitos no terminal da cabine. Fiquei no carro por mais duas horas, comparando minha contagem manual da manhã com os recibos digitais do mesmo período. Os cálculos foram desastrosos. Com base no fluxo de tráfego observado e nos poucos preços legíveis no painel, os recibos automáticos representavam apenas cerca de 63% da receita esperada.

Trinta e sete por cento. Essa foi a perda. Restaram apenas 37%, de forma limpa e constante.

Eu não tinha dinheiro para uma placa nova. Não tinha dinheiro para uma câmera de segurança. A regra de Arthur era inabalável: não gaste seu próprio dinheiro. Verifiquei meu celular. Eu tinha uma conta gratuita de armazenamento em nuvem com cinco gigabytes. Encontrei um aplicativo gratuito que transforma o celular em uma câmera de segurança ativada por movimento. Caminhei até o canto mais escuro e alto do estacionamento, perto de uma lixeira transbordando, e subi em uma pilha de paletes descartados. Encaixei o celular entre dois canos enferrujados que davam para a cabine do atendente. Era um ângulo péssimo, a imagem granulada, mas eu conseguiria ver a janela do lado do motorista de cada carro que pagasse. Configurei para gravar o movimento e enviar o sinal pela rede Wi-Fi pública do estacionamento, que agora estava ativa.

Em seguida: a placa. Eu precisava contornar o gerente. Precisava criar novas regras pelas quais as pessoas estivessem dispostas a pagar. Abri um gerador de código QR online gratuito. Vinculei-o a um novo perfil de pagamento básico que criei usando a autorização temporária delegada ao meu e-mail do Hian Pilot. Era uma página de pagamento segura e simples. Desenhei uma nova placa no antigo software de apresentação do meu laptop. Deixei-a bem amarela.

Cabine fechada para atualização do sistema.

E em letras grandes e em negrito:

PAGUE AQUI. LEIA O CÓDIGO QR PARA SAIR.

Coloquei o código QR bem em destaque. Deixei as tarifas bem claras: US$ 5 pela primeira hora e US$ 20 pelo dia todo. Levei o arquivo em um pen drive (o mesmo da minha caixa de terminal Northstar) a uma copiadora a três quarteirões de distância. Não podia usar meu próprio dinheiro, mas a copiadora tinha um envelope de caixa pequeno no painel de manutenção para suprimentos de emergência. Havia US$ 41 e alguns centavos. Usei US$ 25 para plastificar três pôsteres grandes. Não era meu dinheiro. Era dinheiro do ativo. Eu estava reinvestindo.

Eu mesmo instalei as placas com abraçadeiras de nylon que encontrei na caixa de manutenção. Coloquei uma na entrada, outra bem em frente à cabine de controle e outra na saída.

O efeito foi imediato. Os motoristas diminuíram a velocidade, confusos. Pegaram seus celulares. Eu observei tudo do meu carro.

Digitalize. Digitalize. Pague.

As receitas começaram a chegar ao livro-razão digital em tempo real.

O zelador, um sujeito corpulento chamado S, voltou do almoço. Ele viu a placa. Congelou. Ficou olhando para ela. Depois olhou ao redor do estacionamento, com o olhar inquisitivo, sombrio e furioso. Viu meu carro no canto. Não me cumprimentou.

As primeiras 24 horas se passaram. Cochilei no banco do motorista; o espaço apertado me causava dor no pescoço. Analisei os dados. Pagamentos por QR Code estavam chegando aos montes. O registro do caixa naquele dia? Zero.

O funcionário do turno da noite, Mitch, chegou às 22h. Ele era mais jovem, estava nervoso e visivelmente chateado. Ele viu a placa, ignorou-a e pegou dinheiro da caminhonete de um empreiteiro, fazendo sinal para que eles passassem. Eu vi tudo perfeitamente. Na imagem tremida da câmera do meu celular, o dinheiro foi para o bolso dele, não para o caixa.

Eu tinha a prova.

Usando o e-mail da Hian Pilot, acessei o portal de agendamento de funcionários. Encontrei o formulário de suspensão temporária de responsabilidade fiduciária. Nele, citei negligência grave e descumprimento dos novos protocolos de pagamento. Assinei com meu nome: Luna Cruz, auditora, autoridade temporária do projeto. Imprimi o formulário na copiadora com o restante do meu caixa pequeno. Colei-o na porta da cabine de comando antes do início do segundo turno da noite.

Com efeito imediato, as operações do turno da noite foram suspensas até a conclusão da análise financeira. O guichê ficou fechado das 22h às 6h.

Ele havia impedido o desfalque daquela noite.

A reação negativa veio três horas depois. Não foi um telefonema. Foi um e-mail enviado para o endereço genérico de informações da Granite Yards, que eu havia encaminhado para minha conta piloto. O remetente era anônimo, uma sequência de números aleatórios. O assunto estava em branco. A mensagem consistia em quatro palavras:

Não toquem no nosso dinheiro.

Anexei uma fotografia. Não era minha. Era do meu carro estacionado na esquina. Um close da minha placa, tirada no escuro.

Meu sangue gelou.

Eles não estavam apenas com raiva. Estavam me observando. Sabiam quem era meu alvo. Aquilo não era mais uma auditoria corporativa. Eu era um alvo.

Eu devia ter ido embora. Devia ter ido para um hotel, mas não tinha dinheiro. E esta foi a prova.

Se você falhar, nunca chegaremos a nos conhecer.

Fiquei. Tranquei as portas. Sentei-me no banco de trás, sob o batente da janela. Encostei minha caixa de papelão com material de escritório em uma porta e minha mochila na outra. Peguei o spray de pimenta que guardava na bolsa.

Não consegui dormir. Cada som — um caminhão passando por um buraco, o vento batendo na cerca de metal — martelava meu coração.

Por volta das 3h da manhã, eu ouvi. Um som de arranhão. Um guincho metálico, agudo e arrastado. Eu não me mexi. Não respirei. Apertei a lata de spray de pimenta com tanta força que meus nós dos dedos doíam. Esperei, escutando, por o que pareceu uma hora.

Silêncio.