Sentei-me ali, com o processo aberto. O promotor. Era o ponto sem volta. Não se tratava mais da família. Tratava-se da lei.
Como se quisesse chamar minha atenção, meu celular acendeu com uma notificação do Facebook. Era minha mãe. Ela tinha postado pela primeira vez em meses. Era uma publicação pública.
Sempre acreditei que a família é a coisa mais importante. Criei meus filhos para serem respeitosos e gentis. Uma boa filha sabe o seu lugar. Uma boa filha é uma filha quieta. Tenho muito orgulho de amigos verdadeiros como Caleb Broen, que estão nos apoiando nestes tempos difíceis. Lealdade é tudo.
Ela escolheu publicamente. Ela o apoiou. Ela me chamou de filha má, filha barulhenta, para todos verem.
A dor era real.
Fechei os olhos por um instante, vencido pelo cansaço do último mês da minha vida.
Recebi um novo e-mail. Não era do Arthur. Era da Jenna, uma colega de trabalho da Northstar Metric. Assunto: Meu Deus!
O e-mail: Oi Luna, acabei de ver aquele post horrível no blog. Horrível mesmo. Ignore. Só queria dizer que tenho acompanhado os comunicados da Hian sobre as ações. Eles estão reestruturando a cadeia de suprimentos. Sei que foi você. Estou nesse ramo há 10 anos e nunca vi ninguém conseguir impedir esse tipo de fraude familiar de alto nível envolvendo alguém de dentro da empresa. Normalmente, eles simplesmente abafam o caso. Você é uma lenda. Não deixe que eles vençam.
Eu li duas vezes.
Uma lenda.
Olhei para o pacote destinado ao promotor. Olhei para a correspondência da minha mãe. Olhei para a foto granulada minha, sozinha e com frio no meu carro.
Naquela noite, finalmente entendi a pergunta de Arthur.
Este carro é seu?
Pensei que fosse um teste às minhas finanças. Não era. Pensei que fosse um teste à minha independência. Era mais do que isso. Era um teste de responsabilidade.
Possuir algo não significa que você pode usá-lo. Significa que você é responsável por isso. Publicamente. Quando está quebrado, quando é feio, quando é duro, quando alguém o arranha, você é responsável pela verdade dos fatos.
Aquele carro me pertence. Os dados me pertencem. Esta auditoria me pertence. A decisão me pertence.
O chão do quarto espartano vibrou levemente. Um estrondo surdo de trovão. Uma nova tempestade se aproximava de Riverton. Assim como naquela primeira noite, eu estava sentado sozinho, a luz azul do meu laptop iluminando meu rosto, revisando as contas finais.
Outro e-mail. Este era oficial. Do secretário corporativo da Hian Forge. Assunto: Aviso de assembleia extraordinária de acionistas.
Abri o documento. Era um aviso para todas as principais partes interessadas. Meu nome não estava na lista, mas eu era claramente o assunto. O quarto item da pauta era: revisão e votação da proposta de alteração do administrador designado do fundo fiduciário de terceira geração.
Eles estavam fazendo sua jogada final. Os auditores estavam investigando. Caleb tinha sido descoberto. Então, eles estavam indo com tudo. Iriam usar seus votos para empossar formalmente Belle — a vítima pública, a merecedora — e me deixar, a prima das planilhas, de fora para sempre.
A sala era diferente. Não era o jardim de inverno escuro com painéis de mogno, uma relíquia do passado. Era a sala principal de reuniões dos acionistas, no 40º andar do Hail House. Era uma caixa de vidro no alto — estéril, moderna — repleta de cerca de 30 pessoas em ternos escuros e caros. Não eram apenas parentes nostálgicos. Eram investidores institucionais, gestores de fundos, sócios e seus advogados. Era ali que residia o verdadeiro poder.
Arthur presidia a enorme mesa de mármore branco. Eu estava sentado novamente em uma cadeira de consultor, um pouco afastado da mesa principal, ao lado do púlpito audiovisual. Meu velho e surrado laptop parecia uma bomba sobre o aparador branco e estéril.
Estavam todos lá. Margot. Philip. Edward. Sentaram-se à direita de Arthur, com semblantes serenos, como se a reunião do conselho fiduciário tivesse sido um assunto trivial. E do outro lado, com ares de vítima inocente e serena, estava Belle. Sentou-se ao lado do advogado de sua mãe, e na ponta da mesa, ladeado por sua própria equipe jurídica, estava Caleb Rowan. Ele estava magnífico, com o rosto refletindo uma preocupação discreta: um homem injustamente acusado, mas presente por obrigação.
O secretário corporativo revisou os procedimentos iniciais em tom monótono. O advogado sênior do conselho, um homem com o rosto que parecia feito de couro caro, resumiu a pauta.
"E, finalmente", disse ele, com a voz ecoando pelos alto-falantes da sala, "o quarto item da pauta: revisão e votação da proposta de alteração do administrador designado do fundo fiduciário de terceira geração."
Margot falou imediatamente. Sua voz era suave e ensaiada.
“Senhor Presidente”, disse ela a Arthur, “antes de prosseguirmos com as revisões operacionais, acredito que devemos abordar a questão da estabilidade. O fundo precisa de um representante claro e visível, tendo em vista a recente agitação pública. A família se uniu. Precisamos de uma voz que represente a cura, a continuidade e os valores comunitários positivos que Hian sempre defendeu.”
Ela fez um gesto afetuoso, como uma rainha apresentando seu herdeiro, para Bel.
Propomos formalmente a nomeação de Belle Whitaker como representante interina da terceira geração. Ela tem o apoio integral da família. Possui um sólido histórico de serviço público e compreende o espírito de nossas iniciativas filantrópicas. Solicito uma votação imediata para ratificar sua nomeação.
Caleb Rowan assentiu gravemente com a cabeça, do seu lado da mesa.
“Uma decisão sábia, Margot”, disse ele. “Os mercados detestam incerteza. Isso enviaria uma forte mensagem de união.”
Filipe e Eduardo murmuraram.
“Pegue, pegue.”
Eles estavam com pressa. Estavam tentando fazer com que a votação fosse simples, clara e protocolar: uma demonstração de força já conhecida para tranquilizar os investidores antes da apresentação formal da auditoria.
“Só um instante, por favor”, eu disse.
Minha voz era baixa, mas na sala com acústica amplificada, soava como o martelo de um juiz.
Todos os olhares se voltaram. Trinta ternos.
Margot estreitou os olhos.