Eu tinha 14 anos, estava sentada em um escritório do aeroporto, comendo meu segundo prato de frango com arroz, tentando assimilar o fato de que minha família havia cometido um crime contra mim.
Uma parte de mim ainda queria proteger minha mãe.
Dezessete anos de condicionamento não desaparecem em poucas horas.
Eu ficava pensando: "Talvez ele não soubesse."
Talvez Spencer a tenha enganado completamente.
Talvez se eu explicasse, ele se desculparia e tudo voltaria ao normal.
Mas aí me lembrei das imagens de segurança.
Como ele poderia não hesitar?
Por que ele não olhou para trás?
E me lembrei de todos os anos anteriores a esse momento.
Todas as vezes ele acreditou em Spencer antes de acreditar em mim.
Ele sempre ficava do lado dela sem questionar.
Sempre que eu tentava lhe dizer que algo estava errado, ele me ignorava.
Este não foi um erro isolado.
Foi o culminar de um padrão que vinha se construindo ao longo de toda a minha vida.
Ele era jovem demais, desesperado demais pelo amor dela para enxergar isso com clareza.
A raiva que ele sentira antes, aquela pequena chama, foi ficando cada vez mais forte.
Não era ardente nem selvagem, mas frio e constante.
Aquele tipo de raiva que não passa facilmente.
Enquanto aguardávamos notícias de Bangkok, algo mais aconteceu.
Algo que mudou tudo.
Quando o avião pousou e as autoridades tailandesas detiveram Spencer e minha mãe, confiscaram o celular de Spencer como prova.
O procedimento padrão em qualquer investigação envolvendo um menor.
E quando examinaram as mensagens dele, encontraram exatamente o que Khaled suspeitava.
Mensagens para a namorada dele, uma garota chamada Britney, de três semanas antes da nossa viagem.
Spencer não agiu por impulso.
Eu vinha planejando isso há quase um mês.
Uma das mensagens dizia: "A viagem é perfeita. Vou me livrar dela em Dubai e a mamãe vai ter que escolher um lado."
"Ela sempre me escolhe."
Outra coisa: assim que a Molly desaparecer, vou conseguir convencer a mamãe sobre o dinheiro. Ela confia totalmente em mim.
E a mais convincente de todas, enviada apenas dois dias antes de partirmos de Phoenix:
Quando eu fizer 18 anos, esse fundo fiduciário será meu. Molly nem sabe que ele existe. E se ela fugir para Dubai, não terá direito a reivindicar a parte dela. Problema resolvido.
Quando Khaled leu aquelas mensagens para mim, senti como se tivesse levado um soco no estômago.
Spencer não era apenas cruel.
Ele estava fazendo cálculos.
Eu me via como um obstáculo para conseguir dinheiro que eu nem sabia que existia.
E ele decidiu me eliminar da equação para sempre, se pudesse.
O que teria acontecido comigo se Khaled não tivesse me encontrado?
E se eu tivesse me perdido naquele aeroporto, um adolescente americano esquecido, sem documentos e sem como voltar para casa?
Eu não queria pensar nisso.
A Sra. Patterson me ajudou a entender o que Spencer estava protegendo.
Meu pai, antes de falecer há oito anos, criou um fundo fiduciário para seus dois filhos.
O valor total foi de US$ 400.000, dividido igualmente entre Spencer e eu.
A metade de Spencer (US$ 200.000) estaria disponível quando ele completasse 18 anos.
Isso aconteceu em três meses.
Minha metade (200.000 dólares) foi estruturada de forma diferente.
Meu pai havia condicionado o pagamento a despesas com educação até ela completar 25 anos.
Eu não podia mexer na capital, mas pagaria pela faculdade, pelos estudos de pós-graduação e por qualquer programa de treinamento que eu quisesse.
Estava protegido, mantido trancado a sete chaves, onde ninguém podia ter acesso.
Spencer vinha tentando há meses convencer minha mãe a consolidar as finanças.