O Resultado: A Contagem Regressiva
Faltavam três dias para a viagem de Roberto à China. A tensão em casa era insuportável. Lorena vivia com febre alta e delirava à noite. Carla, sentindo-se vitoriosa, organizou um jantar de despedida para Roberto com seus sócios e amigos da alta sociedade. Queria mostrar que era a esposa perfeita antes de ele partir por um mês.
"Quero tudo impecável, Rosa", ordenou Carla. "E certifique-se de que aquela garota não desça. Tranque-a se for preciso. Não quero que ela estrague minha noite com essa cara de pena."
Rosa, com o celular no bolso, embarcou no avião. "Sim, senhora." Mas Rosa tinha outros planos. Ela vinha enviando tudo para a Dra. Patricia: gravações de áudio dos insultos, fotos da evolução do ferimento e um registro da febre de Lorena, que não baixava de 39 graus.
O jantar começou às 20h. Risos, vinho caro, conversas sobre investimentos. Roberto presidia a mesa, sorrindo, mas olhando para o relógio. Lá em cima, Lorena gemia. "Rosa... dói tanto..." choramingou a menina. "Sinto que vou explodir por dentro." Rosa tocou a testa da menina. Estava mais quente do que nunca. Sua respiração era superficial. "Chega", disse Rosa, não como funcionária, mas como mãe. "Acabou."
Rosa carregava Lorena nos braços. A menina, embora tivesse 9 anos, era tão magra que pesava como uma pluma. Ela desceu as escadas. Os saltos de Carla tilintavam na sala de jantar enquanto ela fazia um brinde. "Ao sucesso de Roberto na Ásia...", disse Carla, erguendo a taça.
“Sr. Roberto!” O grito de Rosa ecoou pela sala, silenciando o brinde. Todos se viraram. Rosa estava parada na porta, segurando Lorena, pálida e suada, nos braços, enrolada em um cobertor. Carla se levantou num pulo, com os olhos faiscando. “O que isso significa? Eu disse para você mantê-las lá em cima! Saia agora mesmo ou está demitida!” “Então estou demitida!” gritou Rosa, marchando em direção à mesa. “Mas primeiro, seu marido vai ver o que você vem escondendo debaixo do tapete há oito meses.”
Roberto se levantou, confuso. "Rosa, o que aconteceu com Lorena?" "O que aconteceu com ela?" Rosa colocou Lorena cuidadosamente no sofá branco da sala, imediatamente o encharcando com fluidos. "Sua filha está definhando, Sr. Roberto! E sua esposa sabe disso!"
Carla correu em direção a Roberto, agarrando-o pelo braço. "Ela está louca! Ela está mentindo! Lorena caiu na banheira hoje, é só um arranhão! Chamem a segurança!"
Rosa não discutiu. Simplesmente puxou o cobertor e levantou a blusa de Lorena, como fizera dias antes, mas agora, sob a luz do lustre de cristal, a visão era de pesadelo. O cheiro de carne necrosada e pus impregnava o ar, fazendo com que dois convidados tapassem o nariz. O silêncio era absoluto. A mancha preta e verde cobria quase toda a parte inferior das costas dela. "Meu Deus!" exclamou um dos sócios.
Roberto parou de repente. Aproximou-se cambaleando, como se estivesse sonhando. "Lorena..." "Papai..." sussurrou a menina, mal abrindo os olhos. "Diga à Carla para não me empurrar mais... por favor..."
Carla tentou falar: "Roberto, ela está delirando, eu..." Nesse momento, Rosa pegou o celular e o conectou ao sistema de som Bluetooth da sala, que ainda estava pareado desde a tarde. Ela apertou o botão. A voz de Carla ecoou pela sala, clara e cruel: "...Não aguento mais aquela pirralha. Quinze dias e Roberto vai sumir por um mês. Finalmente, terei um pouco de paz... A ferida está fedendo, mas que apodreça. Se ela morrer, melhor ainda, aí podemos ficar com tudo..."
Carla perdeu a cor do rosto. Os convidados murmuraram, horrorizados. Roberto virou-se lentamente para a esposa. A expressão de um empresário bem-sucedido havia desaparecido. Em seu lugar, estava a fúria primitiva de um pai que acabara de acordar. "Você... você fez isso com ela?" "Roberto, é uma armação! Aquela funcionária quer dinheiro!"
Roberto não a ouviu. Ajoelhou-se ao lado da filha, chorando abertamente. "Chamem uma ambulância!", gritou. "AGORA!"
A ambulância chegou em dez minutos, acompanhada pela polícia que a Dra. Patrícia havia enviado após receber o sinal de Rosa. Enquanto os paramédicos estabilizavam Lorena, dizendo coisas como "choque séptico" e "cirurgia de emergência", a polícia algemava Carla. Ela gritava, ameaçava, dizia que conhecia juízes, mas ninguém olhou para ela.
Roberto entrou na ambulância com a filha, segurando sua pequena mão. Antes que as portas se fechassem, ele olhou para Rosa. "Entre. Por favor. Ela precisa mais de você do que de mim."
No hospital, a cirurgia durou cinco horas. Os médicos tiveram que remover uma grande quantidade de tecido infectado e realizar enxertos de pele. Disseram que, se tivessem esperado mais 24 horas, a infecção teria se espalhado irreversivelmente pela corrente sanguínea. Roberto passou a noite na capela do hospital. Rosa ficou ao lado da cama de Lorena.
Ao amanhecer, a porta do quarto se abriu. Não era um médico. Era Julia. Seus olhos estavam inchados, mas ela estava lá. A Dra. Patrícia havia ligado, explicando por que sua mãe não tinha podido vir naquela noite. Rosa se levantou, com medo de que a filha a rejeitasse. Julia olhou para o bebê na cama, coberto de tubos, e depois para a mãe, desgrenhada e exausta. "A Dra. Patrícia me contou", disse Julia, com a voz embargada. "Ela me contou o que você fez. Que você salvou a sua própria vida." "Me perdoe, filha. Me perdoe por não estar lá por você quando você perdeu seu bebê." Julia correu para os braços da mãe. "Você estava salvando uma menininha que não tinha ninguém, mãe. Você é uma heroína."
Um ano depois.
O jardim da mansão Quinta da Boa Vista estava diferente. Brinquedos estavam espalhados pelo gramado e o ar cheirava a churrasco. Roberto havia vendido as empresas. Agora trabalhava como consultor em casa, passando as tardes levando Lorena para a fisioterapia e aulas de natação. Carla fora condenada a 12 anos de prisão por tortura, lesão corporal grave e abandono de incapaz. O escândalo destruiu sua reputação e seus “amigos” desapareceram.
Lorena correu pelo jardim. Ela ainda tinha uma grande cicatriz nas costas, uma marca que nunca desapareceria, mas não doía mais. "Tia Rosa! Tia Rosa!" gritou Lorena. Rosa saiu da cozinha com uma bandeja de suco. Ao lado dela estava Júlia, que agora trabalhava como assistente administrativa de Roberto e estudava enfermagem à noite. "Calma, menina!" riu Rosa.
Lorena se jogou nos braços de Rosa. "Papai disse que podemos comer bolo de cenoura antes do jantar hoje." Roberto se aproximou, sorrindo, parecendo mais relaxado, menos abastado, mas muito mais feliz. "O que a patroa Rosa disser, nós fazemos", disse ele, piscando o olho.
Rosa olhou para aquela família improvável: um pai redimido, uma filha sobrevivente, uma jovem mãe que encontrara um novo propósito e ela mesma, que encontrara seu lugar. "Então que seja bolo de cenoura", declarou Rosa.
E pela primeira vez em muito tempo, naquela casa, ninguém precisou comer sozinho, ninguém teve medo, e a dor era, enfim, apenas uma lembrança distante, coberta pelo amor que Rosa tivera a coragem de semear.
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